Uma semana de Sam – dia 5

Eu não quero ninguém me falando como eu devo sentir.

Amor se mede por intensidade, não por tempo.

Piégas. Desculpa, foi a vodka (e você).

Uma semana de Sam – dia 3

Quando eu acordei já não tinha mais ninguém dormindo ao meu lado.

O cheiro do corpo suado dele ainda estava lá, naqueles lençóis já meio sujos. Agora que eu não ia querer lavar.

A dor de cabeça me prendeu na cama por um tempo, mas enfim me levantei e fui tomar o café.

Alí, na cozinha, colado no microondas, havia um post-it que dizia:

“Muito obrigado e me desculpe.”

Covarde.

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Uma semana de Sam – dia 2

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Sobre a festa eu não sei bem o que devo e o que não posso lhe contar. É bem provável que estes aspectos se convirjam, e isso em nada facilita meu trabalho.

E ainda me lembro de tão pouco.

 

Era final de um ano e começo de outro. A casa era minha, mas eu não conhecia metade das pessoas que estavam lá. Bebida era o que não faltava, mas não tinha champanhe. Nada de lentilha, só amendoim. Em todo caso comi nove balas de uva e contei como superstição o suficiente para aquela noite.

Depois da meia-noite as coisas começam a não fazer sentido algum, pelo menos na minha cabeça. O ano já era novo, mas eu ainda tinha que lidar com resquícios do velho: os efeitos de toda aquela bebida e daquele bolinho de maconha que eu tinha comido.

As pessoas passavam por mim como vultos, e eu posso jurar que metade delas estava apenas usando suas roupas de baixo. Fui beijada por alguns, e não consigo dizer com certeza quantos dos beijos eu retribui.

Girando, girando. Meus movimentos de dança foram ficando cada vez mais fluídos e rotatórios. Não importava mais a música, eu ia dançar sempre igual.

Até que eu parei de girar, mas minha cabeça continuou girando. Abandonei a festa e fui para o meu quarto dormir. Expulsei o casal que se pegava na minha cama, tranquei a porta e me deitei. Fechei os olhos.

 

Uma semana de Sam – dia 1

Apesar de gostar muito de falar sobre mim, me encontro agora meio confusa sobre o que seria importante de ser dito.

Se eu disser meu signo, lua e ascendente está tudo certo e não preciso entrar em detalhes de mais nada?

Talvez eu precise me esforçar um pouco mais.

 

 

Sou chamada de Sam. Eu gosto porque tem um ar andrógino. Sinto-me confortável nesta ambiguidade, como se de alguma forma eu estivesse impedindo a interpretação do meu trabalho como voz masculina ou feminina. Mas como estou aqui para contar um pouco mais de mim, devo dizer que Sam é redução do nome Samanta.

Nasci nesta metrópole abismal que chamamos de São Paulo. Não me leve a mal, eu amo este lugar, mas não dá para viver aqui sem este sentimento de estar sendo puxada para baixo o tempo todo.

Suga você, seca você, desestabiliza você.

De certa forma ao falar de São Paulo estou também falando de mim. Eu nunca consegui me desvencilhar daqui. Saio, mas sempre volto. Não me atrevo a largar. Não imagino qualquer outro lugar onde eu conseguiria ter tanta companhia mesmo nos meus momentos mais solitários. A trilha sonora da minha masturbação é o chão sendo varrido no apartamento de cima.

Não concordo com o que dizem sobre cidades grandes. Eu conheço meus vizinhos. Tem o cara do chapéu que sempre me cumprimenta no elevador e comenta do clima, tem a recém chegada do interior que sempre vem me perguntar onde ficam os lugares e como chegar lá, tem aquele homem cuja mãe mora no mesmo prédio e ele sempre liga errado para o meu interfone quando quer falar com ela; tem até mesmo aquela senhora que uma vez me interfonou para perguntar se estava tudo bem depois de ouvir gritos de meu apartamento causados por uma discussão. Somos como uma grande família na qual ninguém sabe o nome de ninguém, mas todo mundo se importa.

Além destas companhias periféricas, meu apartamento está sempre cheio de visitantes. Visitantes e tralhas. Estão sempre esquecendo coisas por aqui. Não sei se é desculpa para voltar. Nem sempre voltam, nem sempre quero que voltem.

Acho que por ora isto basta.

Até mais.

,Sam Terri

Uma semana de Ella – dia 6

Vi Sam algumas vezes.

A primeira coisa que notei foi que ela está sempre acompanhada de ao menos uma pessoa, parece que sente desprezo pela solidão. Algumas pessoas são assim, eu acho. Se fica sozinha por um instante, trata de tentar conversa com quem quer que esteja perto, foi assim que acabamos conversando pela primeira vez.

Era uma reunião de vários amigos de uma menina que eu tinha conhecido naquele dia mesmo (eu também tenho essa mania de falar com estranhos), e eu estava segurando um copo de água enquanto olhava um quadro pendurado na parede, era um circulo roxo em meio a um fundo preto, feito de pinceladas marcadas e irregulares. Achei bonito, então tomei meu tempo em frente a ele. Foi quando Sam se aproximou de mim, claramente alterada pelo excesso de álcool, olhou para o quadro, me olhou, olhou o quadro, e disse:

– Já faz tempo que você está aqui.

Parecia incomodada com isso, como se eu estivesse fazendo alguma coisa muito errada.

– As cores, as pinceladas… Eu gosto.

– Aham. – pareceu desinteressada – Qual é seu nome?

– Ella, e o seu?

-Sam.

Seus olhos voltaram para o quadro, depois olhou ao redor e saiu dizendo que tinha sido um prazer e que conversávamos mais tarde, então foi cumprimentar alguém que conhecia. Eu voltei a olhar para o quadro.

 

O que mais me chama atenção em Sam é que ela se irrita fácil. A sua impaciência é singular. Fala alto, joga bebida no rosto dos outros e quebra copos, muitos copos. Por outro lado, parece uma pessoa muito amável, do tipo que se importa com aqueles com quem se importa (algumas pessoas não se importam com quem se importam).

Mas tudo isso observei de longe, não nos conhecemos direito. Como eu disse no começo, eu a vi muitas vezes, e muitas vezes apenas a vi.