Uma semana de Sam – dia 2

chão de festa_

Sobre a festa eu não sei bem o que devo e o que não posso lhe contar. É bem provável que estes aspectos se convirjam, e isso em nada facilita meu trabalho.

E ainda me lembro de tão pouco.

 

Era final de um ano e começo de outro. A casa era minha, mas eu não conhecia metade das pessoas que estavam lá. Bebida era o que não faltava, mas não tinha champanhe. Nada de lentilha, só amendoim. Em todo caso comi nove balas de uva e contei como superstição o suficiente para aquela noite.

Depois da meia-noite as coisas começam a não fazer sentido algum, pelo menos na minha cabeça. O ano já era novo, mas eu ainda tinha que lidar com resquícios do velho: os efeitos de toda aquela bebida e daquele bolinho de maconha que eu tinha comido.

As pessoas passavam por mim como vultos, e eu posso jurar que metade delas estava apenas usando suas roupas de baixo. Fui beijada por alguns, e não consigo dizer com certeza quantos dos beijos eu retribui.

Girando, girando. Meus movimentos de dança foram ficando cada vez mais fluídos e rotatórios. Não importava mais a música, eu ia dançar sempre igual.

Até que eu parei de girar, mas minha cabeça continuou girando. Abandonei a festa e fui para o meu quarto dormir. Expulsei o casal que se pegava na minha cama, tranquei a porta e me deitei. Fechei os olhos.

 

Uma semana de Sam – dia 1

Apesar de gostar muito de falar sobre mim, me encontro agora meio confusa sobre o que seria importante de ser dito.

Se eu disser meu signo, lua e ascendente está tudo certo e não preciso entrar em detalhes de mais nada?

Talvez eu precise me esforçar um pouco mais.

 

 

Sou chamada de Sam. Eu gosto porque tem um ar andrógino. Sinto-me confortável nesta ambiguidade, como se de alguma forma eu estivesse impedindo a interpretação do meu trabalho como voz masculina ou feminina. Mas como estou aqui para contar um pouco mais de mim, devo dizer que Sam é redução do nome Samanta.

Nasci nesta metrópole abismal que chamamos de São Paulo. Não me leve a mal, eu amo este lugar, mas não dá para viver aqui sem este sentimento de estar sendo puxada para baixo o tempo todo.

Suga você, seca você, desestabiliza você.

De certa forma ao falar de São Paulo estou também falando de mim. Eu nunca consegui me desvencilhar daqui. Saio, mas sempre volto. Não me atrevo a largar. Não imagino qualquer outro lugar onde eu conseguiria ter tanta companhia mesmo nos meus momentos mais solitários. A trilha sonora da minha masturbação é o chão sendo varrido no apartamento de cima.

Não concordo com o que dizem sobre cidades grandes. Eu conheço meus vizinhos. Tem o cara do chapéu que sempre me cumprimenta no elevador e comenta do clima, tem a recém chegada do interior que sempre vem me perguntar onde ficam os lugares e como chegar lá, tem aquele homem cuja mãe mora no mesmo prédio e ele sempre liga errado para o meu interfone quando quer falar com ela; tem até mesmo aquela senhora que uma vez me interfonou para perguntar se estava tudo bem depois de ouvir gritos de meu apartamento causados por uma discussão. Somos como uma grande família na qual ninguém sabe o nome de ninguém, mas todo mundo se importa.

Além destas companhias periféricas, meu apartamento está sempre cheio de visitantes. Visitantes e tralhas. Estão sempre esquecendo coisas por aqui. Não sei se é desculpa para voltar. Nem sempre voltam, nem sempre quero que voltem.

Acho que por ora isto basta.

Até mais.

,Sam Terri

Uma semana de Ella – dia 6

Vi Sam algumas vezes.

A primeira coisa que notei foi que ela está sempre acompanhada de ao menos uma pessoa, parece que sente desprezo pela solidão. Algumas pessoas são assim, eu acho. Se fica sozinha por um instante, trata de tentar conversa com quem quer que esteja perto, foi assim que acabamos conversando pela primeira vez.

Era uma reunião de vários amigos de uma menina que eu tinha conhecido naquele dia mesmo (eu também tenho essa mania de falar com estranhos), e eu estava segurando um copo de água enquanto olhava um quadro pendurado na parede, era um circulo roxo em meio a um fundo preto, feito de pinceladas marcadas e irregulares. Achei bonito, então tomei meu tempo em frente a ele. Foi quando Sam se aproximou de mim, claramente alterada pelo excesso de álcool, olhou para o quadro, me olhou, olhou o quadro, e disse:

– Já faz tempo que você está aqui.

Parecia incomodada com isso, como se eu estivesse fazendo alguma coisa muito errada.

– As cores, as pinceladas… Eu gosto.

– Aham. – pareceu desinteressada – Qual é seu nome?

– Ella, e o seu?

-Sam.

Seus olhos voltaram para o quadro, depois olhou ao redor e saiu dizendo que tinha sido um prazer e que conversávamos mais tarde, então foi cumprimentar alguém que conhecia. Eu voltei a olhar para o quadro.

 

O que mais me chama atenção em Sam é que ela se irrita fácil. A sua impaciência é singular. Fala alto, joga bebida no rosto dos outros e quebra copos, muitos copos. Por outro lado, parece uma pessoa muito amável, do tipo que se importa com aqueles com quem se importa (algumas pessoas não se importam com quem se importam).

Mas tudo isso observei de longe, não nos conhecemos direito. Como eu disse no começo, eu a vi muitas vezes, e muitas vezes apenas a vi.

Uma semana de Ella – dia 5

Eu não estava entendendo tudo aquilo.

Quando deixei a cidade e me deparei com todas aquelas cores percebi dificuldade de meus olhos ajustarem, estranhei. O roxo foi o que mais me chamou, nunca tinha visto nada parecido. O vermelho me era familiar, mas nunca achei que pudesse ser tão bonito. Não sabia que o céu podia ser azul. Até mesmo aquele branco era diferente. 

Foi quando me percebi livre.

 

Se hoje me sinto presa, lembro-me das flores.

 

 

, Ella A.

Uma semana de Ella – dia 3

chao

Vivo sozinha em uma casa térrea e bem pequena. O sol tem dificuldade para entrar pelas janelas estreitas e os cômodos estão sempre mal iluminados. Apesar do tamanho, a casa tem dois quartos, que não me servem de nada porque durmo na sala.

Quase não tenho pertences, convivo com aquela ânsia de fugir a qualquer momento, então prefiro não ter nada além de roupas, cadernos e uma mala. Qualquer outra coisa encontrada na casa são resquícios dos moradores anteriores, que preservei como forma de estabelecer uma ligação com suas histórias, são poucas coisas que me contam pouco, mas é o suficiente, acho.

parede buraco

O resquício que mais gosto é o buraco na parede de um dos quartos, há nele apenas um fio elétrico solto. Imagino que antes ligava algum abajur, em uma tentativa de clarear o ambiente. Todas as lâmpadas de dentro da casa são amarelas e bem fracas, e eu penso que naquele buraco, para variar, tinha um abajur de luz branca. Não sei explicar o porquê, mas pensar sobre isto me deixa feliz.

Já o piso quebrado do corredor me incomoda. Apesar de provavelmente ser resultado apenas de desgaste pelo tempo, aquele ladrilho faltando, os desencaixes… Aquele chão me remete a violência e isto me causa desconforto.

Meu lugar favorito é a janela da sala, que dá vista para a rua. Muitas histórias são contadas por aqueles personagens que transitam na minha frente. Aproveito as narrativas como espectadora até que eles escapam do limite da minha visão (emoldurada pela janela), aí então preciso sozinha contar como tudo continuou.

Eu gosto daqui, mas acho que não sentiria falta se fosse embora.

varal

, Ella A.

Uma semana de Ella – dia 2

só

quarta-feira/2013

Hoje é meu aniversário e minha casa vazia se enche da espera.

Batem a minha porta e aliso meu vestido com as mãos para tentar desamassá-lo. Repuxo os cantos da minha boca em um ensaio de sorriso e giro a maçaneta. É um vendedor de panelas. Ele não me deseja um feliz aniversário, mas assim mesmo eu compro um conjunto que não precisarei usar. Ele agradece pela compra e vai embora sem aceitar um copo de água.

Penso que preciso encontrar um dono para estas panelas fadadas ao esquecimento, mas hoje não. Hoje é meu aniversário. Sinto a necessidade de ficar por aqui, caso alguém se dê conta e queira me encontrar. Pode ser que alguém se lembre. Encosto-me na parede e me sento ao chão.

As horas passam, a casa em silêncio. Talvez eu devesse aceitar que ninguém vem.

Vou esperar mais um pouco.

O sol já foi embora, foi visitar o outro lado do mundo, também sem se dar conta da data especial. Na janela o escuro da noite me contempla e eu acho que uma personificação daquela noite saberia que hoje faço idade. O vento é barulhento, mas não diz nada. Talvez se eu sair da janela alguém apareça.

Talvez eu devesse aceitar que ninguém vem.

Sem bolo, pego uma vela branca e acendo-a. Faço um pedido em sussurro e sopro suavemente, a chama se extingue.

Espero mais um pouco.

Apago a luz e me deito no chão, permitindo o sono.

Amanhã não será mais meu aniversário, mas continuarei esperando que alguém venha me visitar.

, Ella A.

Uma semana de Ella – dia 1

Pediram para eu falar de mim.

Eu não sei.

Meu nome é Ella.

A. é o sobrenome. Quer dizer, não é tanto um sobrenome quanto eu gostaria que fosse. É o que trato como sobrenome.

Eu nasci e cresci em um lugar distante que sofria brutalmente com uma ditadura.  Era longe, tão longe que demorei meses, anos, segundos, uma eternidade para chegar aqui depois que fugi. Sim, eu fugi, não é possível viver para sempre em um lugar que lhe limita… Limitar não, porque limitações estão em todos os lugares… Não é possível viver para sempre em um lugar que não lhe permite.

A verdade é que fugi por não ser permitida, e agora eu que não me permito.

Ninguém quer saber disso.

Talvez o que mais fui privada foi de identidade. Os militares possuíam uma lista com nomes e a cada bebê que nascia era imposto aleatoriamente um, a mãe não possuía opinião até porque era afastada pouco depois de parir. Eu fui uma filha desta ditadura, e fui a primeira Ella: Ella A, o ponto eu acrescentei depois que fugi, queria acreditar que existia algo depois daquela letra.

A verdade é que não existe e o ponto não é ponto de abreviação, é ponto final.

No caminho (longo, como disse) que percorri depois que consegui sair de lá, conheci muitos lugares, bons lugares, com boas pessoas. Em cada lugar eu fiquei tempo o suficiente para saber se me bastava, mas eu nunca pertenci. Não que eu pertença aqui, eu só cansei de andar sem rumo e achei que talvez eu devesse tentar parar de achar um lugar e começar a procurar o alguém que sou. Eu achei que, impulsionada pela primeira fuga, eu não pararia de fugir, por isso me forcei a parar e fiquei, acabou que este foi o lugar.

Às vezes ainda quero fugir, mas eu não me permito.

Já disse, ninguém quer saber disso.

Sinto que as pessoas valorizam tanto a origem. Eu sei de onde vim, mas não sei quem sou… De que adianta?

A verdade é que não quero mais falar sobre mim.

Fala de você.

 

 

, Ella A.