Ponto e virgula

O ar faltava, era difícil de respirar. O vazio lhe repuxava o peito, como um buraco negro se formando dentro dela. A cabeça doía tentando parar as voltas e voltas que insistia em dar, e seus músculos insistiam em contrair e não soltar.

Estava cada vez mais difícil, mas dia após dia descobria que ainda era possível.

De ponto e virgula em ponto e virgula é possível escapar do ponto final?

, Ella A.

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Reais demais

Foi estranho. Eu sentia que gostava de você de verdade. Gostei mais do que gostei de muita gente. E foi legal. Foi bem legal.

Só que passou.

Depois que passou, eu continuei tentando. Tentando porque eu queria acreditar que ainda era pra dar certo. Eu não tinha realmente motivos para parar de gostar de você. O sentimento só foi murchando… murchando…

Até que passou.

Comecei a sentir nojo de você. Eu estava bebendo toda noite que lhe encontrava, você não percebeu? Eu começava pouco antes de você chegar, para que quando eu lhe visse eu já não sentisse mais aquela aflição com o seu toque. Para eu poder enganar meus sentidos e sentir tesão. Se em algum  momento eu sentia que estava voltando pra realidade, eu bebia ainda mais.
Ia dormir agarrada em você, apagada.

As noites eloquentes. As manhãs… reais demais.

, Sam Terri

Revolução

Mulheres, vamos fazer uma revolução.

Primeiro de tudo, avisa pra todas que estamos juntas. Algumas ainda não perceberam isso e precisam da nossa paciência e didática, mas quando elas entenderem, elas virão para cá também.

Somos todas diferentes, temos urgências diferentes, mas estamos juntas.

Deixa claro que queremos é direitos e oportunidades iguais, respeito, autoridade e autonomia. Queremos não ter medo… e também queremos gozar.

Avisa que somos maioria da população, e lembre que a placenta foi onde todos se sentiram mais seguros.

Mulheres, vamos fazer uma revolução.
E ela já começou.

, Sam Terri

 

a baleia mais solitária do mundo

Existe uma baleia que canta em uma frequência acima das outras, e por isso não consegue se comunicar com nenhuma outra de sua espécie.
Os que escutam a história, por empatia ou por identificação, sentem-se mal pelo animal. A baleia mais solitária do mundo, é chamada. E em cada matéria que é escrita sobre ela há uma enorme lamentação em cima da sua solidão.

Mas e a baleia, como ela se sente?

Ela continua a nadar.

, Ella A.

Voyerismo

Acho que tem dois tipos de voyerismo: aquele de quem olha por prazer, e de quem olha por curiosidade.
Eu digo isso talvez tentando justificar uma mania esquisita que eu tenho. Eu gosto de assistir pegações alheias.
De forma alguma é porque sinto tesão naquilo, ou porque eu queira participar. Bom, as vezes eu sinto sim tesão naquilo e as vezes eu queria sim participar. Mas a maioria das vezes é puro entretenimento.
Acho interessante observar a dança que os corpos fazem durante a pegação. Como dois entram em sincronia, ou não. Ver como se olham, se tocam, se cheiram. Como, na grande maioria das vezes, agem como se estivessem completamente sozinhos. Eu me sinto assim também quando me enlaço com alguém. Como se só fosse eu e a pessoa. Parece tão fácil esquecer a música alta, o cheiro de suor e cigarro e os bêbados gritando. Parece fácil não perceber os possíveis voyers, aqueles que as vezes olham por tesão, ou as vezes por curiosidade.

, Sam Terri

Medo

Eu entendo seus medos. Eu também tenho os meus, que são bastante diferentes do seus, mas também são medos.
E se é usada a mesma palavra para descrever coisas tão diferentes, deve ser porque de alguma forma elas são parecidas.

Esses medos.
Os seus, os meus.
Eles são reais.
Não adianta tentar racionalizar, porque isso não vai reduzi-los, apenas intensificá-los.
Proponho então, uma metáfora:

Tubarões são assustadores mesmo quando se está em terra firme. Eles já assustam no “e se”.
Imaginar eles sentindo seu cheiro, se aproximando… rasgando sua pele. A dor. Se afogar, ficar sem ar. Toda a tragédia e sofrimento antes do seu coração parar.
É mesmo terrível, e o tubarão realmente pode lhe matar.

O que eu acho que você não percebeu ainda é que você já está dentro do mar. E dentro do mar não dá mais para pensar no tubarão. Ele está lhe rodeando, ele já viu você.
Não pensa nele.
Nade.
Nade sem olhar o tubarão.
Só dessa forma você terá chance de chegar em terra firme outra vez.

O medo é útil quando lhe alerta, mas não quando lhe paralisa.

, Ella A.