Suicídio

Ele sempre achou que suicídio surgia do desespero, do desgosto. Sempre entendeu que o suicídio era a última saída, última solução, um ponto que alguém só chegaria quando já bastava. Uma maneira enlouquecedora de acabar com o sofrimento. Uma loucura.

Só quando leu aquela carta de adeus que entendeu. O suicídio as vezes pode ser tão lúcido.

mortos

, Ella A.

Grito

Outro dia, voltando do mercado, escutei vindo de uma das casas um grito feminino de prazer. Bem alto. Bem urgente. Seguido de um silêncio completo.

Parei no portão e, por mais tempo que deveria, fiquei parada olhando a porta. Depois fui embora.

Na hora eu tinha achado engraçado, mas agora quando eu lembro, me sinto um tanto excitada. Aquele orgasmo tinha sido tão gostoso que até eu senti.

Passo em frente àquela casa todos os dias, e até hoje nunca vi o homem ou a mulher que foi capaz de provocar aquele gozo tão, tão intenso, que escutei do meio da rua. Mas eu o (a) quero muito.

Acabo muitas vezes pensando nisso, nela (e).

 

Daí ontem, no meio desses pensamentos, eu gritei.

deitada

, Sam Terri

a Terra do Nunca não existe

Quando pequena, já lhe contavam que ela ia crescer. Não lhe esconderam. Mesmo assim, se surpreendia quando passava a alcançar coisas que antes lhe eram inalcansáveis. Chorou quando seus dentes cairam, e ainda mais quando voltaram a nascer. Viu sangue escorrer pelas suas pernas, sem entender porquê tinha que ser assim. De poder sair sozinha passou a precisar sair sozinha, pagar contas. Ser responsável por si.

É difícil aceitar quando é hora de trocar de vaso.

, Ella A.

arvore

Voyer

pósbanho2

Naquele dia quando eu acordei, você achou que eu continuava dormindo. Eu senti seus olhos que verificaram algumas vezes se os meus não estavam abertos, e não os abrir até ter certeza que você deixara de se preocupar. E nessa hora você já estava tão imerso que não notou minha fixação. Você saiu da cama, estava de pau duro, mas não pareceu levar isso em consideração. Andou de um lado pro outro no quarto, com ele apontando para cima, enquanto pensava no que fazer. Deu uma longa espreguiçada, sacudiu os cabelos, como se para ajudar a despertar. Abriu uma frestinha da janela, tomando cuidado para a luz do sol não invadir o quarto todo e me acordar sem estar no meu horário. Deu uma coçada na coxa, e fez um breve carinho no pinto, como se dissesse para ele que estava tudo bem. Outra espreguiçada e um bocejo, seguido de um cigarro acesso e muitas tragadas. Depois disso você apenas continuou lá, parado, contemplando o que provavelmente eram apenas pombos pousando em fios de eletricidade. Sua cara de paisagem, seu pinto duro. Sentado, pelado. Não podia ser mais cômico. Eu nunca fiquei tão excitada em toda a minha vida. Eu nunca desejei tanto você.

Só que eu continuei fingindo dormir. Batalhando aquele tesão em silêncio, escondendo de você a vontade.

Quando você me toca a magia some. E eu queria viver um pouco mais naquele mundo de fantasia.

, Sam Terri

Tem noites que

Aquela noite começou em uma festa de alguém que eu não conhecia muito bem. Um amigo tinha me implorado para acompanhá-lo porque não queria ir sozinho. Aquelas festas que é aniversário de alguém, e você só conhece o aniversariante. Pois eu só conhecia alguém que conhecia o aniversariante. Foi uma festa básica. Divertida, mas básica. Então não vem ao caso eu descrever as músicas, a decoração, os personagens da noite. Foi tudo muito básico.

E como toda festa básica, tinha muita bebida envolvida. Levei um fardo de cerveja e bebi o dobro do valor em tequila. Achei uma boa troca. Então, lá pelas três da manhã, já trocando as pernas e falando enrolado, eu e meu amigo resolvemos que não dava mais para a noite ser básica.

A rua estava calma, e nos despedimos da casa da festa para andar sem rumo. Meu amigo falava bastante alto, e eu tive um pouco de vergonha por ele, só que eu provavelmente falava bastante alto também. Andávamos de mãos dadas, e certa hora começamos a cantar Tribalistas, confundindo as letras. Eu tinha menos vergonha de cantar alto do que de falar alto. Vai entender… Meu amigo revelou que tinha escapado da festa com uma garrafa meio-cheia de catuaba, me fazendo rir e nos fazendo sentar um pouco na calçada suja para tomar alguns goles. Olhamos para o céu e lamentamos que nessa cidade não se consegue ver muitas estrelas. Eu tive que mijar em uma árvore, e tenho quase certeza que alguém de uma casa próxima espiava pela janela. Também tenho quase certeza que quem espiava pela janela também fazia xixi, então estava tudo bem.

No meio de tudo isso paramos na frente de uma casa que parecia vazia. Não tinham carros na garagem, e estava tudo escuro e silencioso. Meu amigo me olhou, travesso. Aquele portão não era muito alto. Sorrimos um para o outro. Não tinha ninguém na casa. Demos risada. Estávamos muito bêbados.

A noite não precisava mais ser básica. E não foi. Passou a ser uma noite de fazer algo pela primeira vez.

nadarpelado

, Sam Terri

Complexo de Alice

cãonomato

Desde que era pequena demais para se lembrar, já escutava contos, muitas vezes era aquele da menina que seguiu um coelho e foi parar em um mundo paralelo onde as pessoas jogam criquet usando flamingos como taco.

Mesmo ouvindo muitas outras histórias, essa foi a que lhe marcou mais. Acho que por isso ela estava sempre seguindo animais, na esperança que um deles lhe guiasse até um buraco que a permitisse fugir daqui.

Mas os gatos não falam, os coelhos não tem pressa, lagartas não filosofam depois de fumar um narguile. Mesmo assim se recusou, até o fim de sua vida, a acreditar que não existia um país das maravilhas, e por todas as tardes que lhe foi permitido, tomou chá refletindo por quanto tempo dura o para sempre.

 

, Ella A.

Querer

Acho que você não tá me entendendo. Eu quero. Quero mesmo. Quero muito. Mas não dá.
Agora não, hoje não. Eu não posso.
Mas quero, quero tanto. Só que não já. Talvez depois.

 

Eu aviso você.

cama colorida

Fugitiva

poeira subindo

Quando fugiu, ela achava que sabia para onde estava indo. Só se percebeu sem rumo quando não podia mais voltar. Assim que o conceito de lar não lhe pareceu mais concreto, notou que estava perdida. Às vezes corria, com pressa, querendo chegar mais rápido, mesmo sem saber para onde estava indo. Às vezes andava bem devagar, relutante, com medo de não conseguir lidar com o que viria. Outras vezes cambaleava, já exausta de andar, sabendo (achando) que tinha que continuar.

Ella A.