O mistério das portas

Não demorou a perceber que grande parte das portas não tinham fechaduras grandes o suficiente para que se olhasse através delas, como via nos desenhos animados. E isso o incomodou.

Queria tocar a campainha das casas que mais lhe despertavam curiosidade, mas acabava apenas olhando, tentando imaginar o que havia lá dentro. Se era uma família grande, uma família pequena, só o dono e seu gato. Ou se era algo mais macabro, como uma sala vazia com paredes manchadas de sangue, com apenas uma cadeira de madeira no centro. As vezes podia nem ter nada, ser uma casa abandonada que não teve tempo de ceder e se desfazer. Ou podia ter muitas coisas, tantas que ele não conseguiria ver tudo nem se conseguisse entrar.

Sua inquietação lhe perseguiu a vida inteira, mas a partir de certa idade parou de guardá-la para si. Começou a fazer desenhos a caneta em papel e colá-los com durex nas portas, esperando que com aquilo o morador sentisse tanta curiosidade quanto ele sentiu.

porta

 

PS: Esta é a foto da minha porta, e o que tem atrás dela. Com isso retribuo o desenho que ele me deixou.

 

, Ella A.

Não se escrevem mais contos de fadas

Era uma vez (ainda se começam histórias assim?) um cara que marcou de encontrar uma moça. Ele ligou uma hora antes para confirmar o endereço e desligou dizendo que se encontravam dentro de uma hora.

Passou essa hora, e mais meia hora depois disso, e então a moça resolveu ligar para perguntar se ele tinha se perdido. Ele não atendeu.

FIM.

(acho que não terminam mais histórias com “e viveram felizes para sempre”, já que nem dá mais para confiar em desconhecidos com quem você combinou sexo de uma noite só).

cabeceira

, Sam Terri

Rotina

janela

Eu confesso: eu gosto de rotina.
Isso é difícil para mim. Dizer isso. Porque eu gosto de passar a impressão que sou desprendida… Livre. Selvagem até. Louca.

Mas eu gosto de rotina.
Eu gosto do previsível, do controlável. Do coerente, do manipulável. Do repetitivo, do dominável.
Eu gosto de saber o que eu estou fazendo.

E com ele eu não sei.

Então eu me apeguei a seu único aspecto que se repete: depois do sexo ele veste a cueca e vai até a janela para fumar.

 

,Sam Terri

Redes Sociais

Para permitir que conheçam melhores as autoras deste projeto, agora é possível encontrá-las se expressando em redes sociais.
A ideia é que são os perfis delas, pessoais, e não uma extensão do trabalho autoral de cada uma, como divulgação.

Ella A. possui um Instagram: @ella.matrioska

Sam Terri também está no Instagram, como @sam.terri, e no facebook, como /sam.terri.sam

 

Até logo!

Andressa.

Pós

Já passava das quatro horas da madrugada. As latas, garrafas e pacotes vazios de salgadinhos já eram recolhidos e a festa aos poucos foi embora.
– Vocês vão ficar aí?
Não era necessário responder àquela pergunta. Eu estava sentada na areia enrolando os cabelos dele em minha mão, enquanto ele descansava na minha perna.

E então não havia mais ninguém lá, só eu e ele. Eu, ele e o barulho do mar agitado.
O seu olhar estava perdido. Olhava pro mar, pra mim, pro céu preto. Acho que até por isso eu não queria dizer nada.
Deixa ele na viagem dele que eu fico na minha.
Acariciei-lhe a orelha e ele fechou os olhos, voltei aos nós do cabelo, imaginando se era possível que ele dormisse lá mesmo. Olhei para a escuridão do horizonte sem querer que amanhecesse.
– Ei.
– O que foi?
– Eu acho que o tempo parou. Você também percebeu?
Não respondi. Ele tinha ido para longe, muito longe. E só o que eu podia fazer era esperar ele voltar.

correndo pelado 2

, Sam Terri

Era aqui que iam naquele dia que não vieram

Ele descreveu para ela: “Tem uma parede branca. Quer dizer. Inicialmente era branca, mas o tempo a fez meio cinza. Mas acho que se eu disser que é uma parede cinza, você não vai encontrar. É uma parede branca suja. Suja de água suja, e talvez outros tipos de sujeira. Suja de tempo. Caindo sobre ela você vai encontrar vários galhos do que parece ser uma planta só, mas desconfio que sejam duas do mesmo tipo que foram plantadas bem juntas. Mas não sei, isso não quer dizer nada. O importante é que você vai ver uma parede branca suja com galhos saindo do seu topo, como se estivessem tentando escapar. Não teriam como escapar de todo jeito, uma vez que estão ligados a uma árvore com raízes que ligam ao chão. Isso também não quer dizer nada. Mas, bem… São emaranhados embaraçados, folhudos e folhosos. Flores de um rosa arroxeado, e folhas verdes, algumas meio marrom, mas a maioria verde. É isso que tem na parede branca suja. Ficou claro? É lá que iremos nos encontrar. Estarei lá às duas.”

E é aqui que eles iam naquele dia que não vieram.

planta

, Ella A.

Banheiros

adesivo na parede2

 

Eu sempre demorei em banheiros públicos mais do que eu precisava. É que eu gosto de analisar os traços e conteúdos das mensagens rabiscadas na porta do cubículo onde fica a privada.

Às vezes é apenas uma piada escatológica e nada original, e às vezes é um recado para alguém que nunca vai ler aquilo, como um “Eu te amo, Ricardo”. Mas muitas vezes o que eu acabo lendo mesmo são xingamentos banais e genéricos.

E é por isso que eu acabo demorando muito nos banheiros públicos. Se eu não encontro nada interessante escrito, escrevo eu. Mas eu gosto de escrever putaria. Sempre em poucas palavras e com vocabulário chulo, descrevo uma ereção, ou um orgasmo, ou apenas a história de um toque.

Eu não sei o porquê eu faço isso. Não acho realmente que alguém vá prolongar o xixi pra uma masturbação em um banheiro fedido apenas por causa de algumas palavras. Eu só faço.

Talvez fosse mais fácil se eu simplesmente desenhasse um pênis ou uma vagina mal desenhada, caricata até, mas eu prefiro as palavras.

Seria mais fácil usar um vibrador, mas eu prefiro os dedos.

Certas coisas a gente só faz.

 

, Sam Terri

Pesadelo

re na areia

A linha se formou embaixo do seu pé, não conseguiu evitar de pisá-la. Em pânico, correu, pisando em várias outras linhas.

A cada linha pisada, se assustava, e num salto acabava pousando em outra linha.

Acordou ofegante daquele que julgou ser seu pesadelo mais perturbador.

 

 

, Ella A.