Fogo

No topo da colina havia uma casa. Era a primeira coisa que se via depois da terceira curva da estrada que ligava uma cidade pequena à outra. Chamava a atenção não só por estar no topo da colina, mas também porque era apenas um esqueleto. Vigas cinzas e empoeiradas, apodrecidas de queimadas. Resquícios do que já fora um lar afundados em pó preto.

A residente se recusa a deixar a propriedade, apesar da situação precária e o risco eminente. Ela passa seus dias pintando. Preenche telas com o que viu: fogo crepitando, árvores secas, restos disformes, poeira densa.

Foi a segunda vez que a casa queimou. Na primeira, uma vela esquecida em uma ausência acabou-se por contaminar uma cortina e espalhou o fogo. Madeira queima fácil. A residente chegou tarde demais, e já sem poder sobre aquele destino: tudo se perdera. Foi quando começou a pintar. Era uma forma de lidar com toda a perda. Reconstruiu a casa aos pouquinhos, dia após dias, intercalando a restauração com as pinceladas.

Foram meses até que completou a reforma, mas valeu a pena. Renovada, a residência estava ainda mais bonita e aconchegante do que antes. Não tinha mais cheiro de fumaça. Tão logo as marcas do fogo ficaram apenas na memória.

Foi quando a pintora parou de pintar. Tentou inspiração nas flores que explodiam de cores ao redor da casa, nos pássaros que vinham lhe visitar, no céu de nuvens esparças e até mesmo na sua própria imagem no espelho. Não conseguia avançar dos rascunhos insosos.

Uma noite, insône e criativamente bloqueada, levantou-se da cama e acendeu um fósforo.

, Ella A.

Redes Sociais

Para permitir que conheçam melhores as autoras deste projeto, agora é possível encontrá-las se expressando em redes sociais.
A ideia é que são os perfis delas, pessoais, e não uma extensão do trabalho autoral de cada uma, como divulgação.

Ella A. possui um Instagram: @ella.matrioska

Sam Terri também está no Instagram, como @sam.terri, e no facebook, como /sam.terri.sam

 

Até logo!

Andressa.

Toque

DSC_3129_baixa

Algumas pessoas possuem manias estranhas, Maria não era uma delas. Sua mania era incomum, mas não era estranha. Era?

Maria gostava de texturas, só isso.

Tecidos, grãos, paredes, embalagens, peles… Tudo era interessante, tudo possuía seu valor sensorial. Alguns chamariam de compulsão, mas era apenas uma mania: ela estava sempre tocando.

Por vezes a vontade de sentir superfícies era tão forte, que Maria acabava tocando em estranhos, ou em objetos de estranhos, ou em coisas nojentas.

Não se permitia frequentar museus, mas fora isso, não era uma mania muito ruim.

 

Aliás, sendo Maria uma pessoa tão apática como era, bom para ela que ao menos sentisse as coisas com as mãos.

 

, Ella A.

Livro Matrioska

capa matrioska

O Livro Matrioska, com contos e fotografias feito por mim, pode ser comprado por R$60,00 através do contato ce.andressa@gmail.com. A tiragem é de 100 exemplares e são 27 contos com 27 fotografias.

 

,Ella  A.

o menino da janela_

 

Sobre lugares e gestos

Este blog foi acompanhado durante seis meses pela residência LabMIS de fotografia e agora estará, junto de trabalhos ótimos, na exposição Sobre lugares e gestos, que abre amanhã (01/05) a partir das 14hrs, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Para quem não puder ir na abertura, a exposição ficará até metade do mês de junho!

E com isso termino um ciclo do blog.

 

Eu queria agradecer a todos do LabMIS fotografia pelos últimos seis meses, foi uma experiência ótima e indispensável para o desenvolvimento deste trabalho.

Ronaldo Entler, Lívia Aquino, Pio Figueiroa, Carol Lopes, Santarosa Barreto, Alan  Oju, Breno Rotatori, Pedro Hurpia, Sári Ember, Garapa, Pangéia de dois, Ágata e Daniela Bracchi… Espero que possamos nos encontrar muitas outras vezes no futuro.

 

Ella e Sam até se gostam um pouco mais agora.

 

ellaEsam

Uma semana de Sam – dia 7

A primeira vez que vi Ella foi em uma festa na casa de uma amiga. Ela tentava conversar com algumas pessoas e a vi contando uma história absurda sobre ter crescido em uma ditadura e ter viajado anos até chegar aqui. Uma história cheia de furos narrativos, mas ela contava com tanta convicção e sua audiência era formada por bêbados, então acho que convenceu alguns.

Ela parecia bastante deslocada, olhava com atenção para um quadro feio da sala quando decidi que seria legal da minha parte se apresentar para ela. Eu tentei puxar conversa, mas não recebi nenhuma recíproca, ao mesmo tempo em que avistei uns amigos que não via já há algum tempo, então nossa interação foi bastante breve.

Mais tarde naquela mesma noite lhe perguntei se ela se importava de posar para mim. Ela relutou um pouco, mas no final até tirou a blusa, como pedi. Apontei a câmera, ela tapou o rosto, cliquei. Preparei-me para o próximo clique, mas ela voltou a se vestir. Pedi para que ficasse, mas ela  insistiu que precisava ir.

Devia estar achando que ia virar abóbora ou que ets viriam  buscá-la se não fosse.

Ella é meio esquisita.