Uma semana de Sam – dia 7

A primeira vez que vi Ella foi em uma festa na casa de uma amiga. Ela tentava conversar com algumas pessoas e a vi contando uma história absurda sobre ter crescido em uma ditadura e ter viajado anos até chegar aqui. Uma história cheia de furos narrativos, mas ela contava com tanta convicção e sua audiência era formada por bêbados, então acho que convenceu alguns.

Ela parecia bastante deslocada, olhava com atenção para um quadro feio da sala quando decidi que seria legal da minha parte se apresentar para ela. Eu tentei puxar conversa, mas não recebi nenhuma recíproca, ao mesmo tempo em que avistei uns amigos que não via já há algum tempo, então nossa interação foi bastante breve.

Mais tarde naquela mesma noite lhe perguntei se ela se importava de posar para mim. Ela relutou um pouco, mas no final até tirou a blusa, como pedi. Apontei a câmera, ela tapou o rosto, cliquei. Preparei-me para o próximo clique, mas ela voltou a se vestir. Pedi para que ficasse, mas ela  insistiu que precisava ir.

Devia estar achando que ia virar abóbora ou que ets viriam  buscá-la se não fosse.

Ella é meio esquisita.

Uma semana de Sam – dia 3

Quando eu acordei já não tinha mais ninguém dormindo ao meu lado.

O cheiro do corpo suado dele ainda estava lá, naqueles lençóis já meio sujos. Agora que eu não ia querer lavar.

A dor de cabeça me prendeu na cama por um tempo, mas enfim me levantei e fui tomar o café.

Alí, na cozinha, colado no microondas, havia um post-it que dizia:

“Muito obrigado e me desculpe.”

Covarde.

Screenshot_2014-02-19-04-24-15

Uma semana de Sam – dia 2

chão de festa_

Sobre a festa eu não sei bem o que devo e o que não posso lhe contar. É bem provável que estes aspectos se convirjam, e isso em nada facilita meu trabalho.

E ainda me lembro de tão pouco.

 

Era final de um ano e começo de outro. A casa era minha, mas eu não conhecia metade das pessoas que estavam lá. Bebida era o que não faltava, mas não tinha champanhe. Nada de lentilha, só amendoim. Em todo caso comi nove balas de uva e contei como superstição o suficiente para aquela noite.

Depois da meia-noite as coisas começam a não fazer sentido algum, pelo menos na minha cabeça. O ano já era novo, mas eu ainda tinha que lidar com resquícios do velho: os efeitos de toda aquela bebida e daquele bolinho de maconha que eu tinha comido.

As pessoas passavam por mim como vultos, e eu posso jurar que metade delas estava apenas usando suas roupas de baixo. Fui beijada por alguns, e não consigo dizer com certeza quantos dos beijos eu retribui.

Girando, girando. Meus movimentos de dança foram ficando cada vez mais fluídos e rotatórios. Não importava mais a música, eu ia dançar sempre igual.

Até que eu parei de girar, mas minha cabeça continuou girando. Abandonei a festa e fui para o meu quarto dormir. Expulsei o casal que se pegava na minha cama, tranquei a porta e me deitei. Fechei os olhos.

 

Uma semana de Sam – dia 1

Apesar de gostar muito de falar sobre mim, me encontro agora meio confusa sobre o que seria importante de ser dito.

Se eu disser meu signo, lua e ascendente está tudo certo e não preciso entrar em detalhes de mais nada?

Talvez eu precise me esforçar um pouco mais.

 

 

Sou chamada de Sam. Eu gosto porque tem um ar andrógino. Sinto-me confortável nesta ambiguidade, como se de alguma forma eu estivesse impedindo a interpretação do meu trabalho como voz masculina ou feminina. Mas como estou aqui para contar um pouco mais de mim, devo dizer que Sam é redução do nome Samanta.

Nasci nesta metrópole abismal que chamamos de São Paulo. Não me leve a mal, eu amo este lugar, mas não dá para viver aqui sem este sentimento de estar sendo puxada para baixo o tempo todo.

Suga você, seca você, desestabiliza você.

De certa forma ao falar de São Paulo estou também falando de mim. Eu nunca consegui me desvencilhar daqui. Saio, mas sempre volto. Não me atrevo a largar. Não imagino qualquer outro lugar onde eu conseguiria ter tanta companhia mesmo nos meus momentos mais solitários. A trilha sonora da minha masturbação é o chão sendo varrido no apartamento de cima.

Não concordo com o que dizem sobre cidades grandes. Eu conheço meus vizinhos. Tem o cara do chapéu que sempre me cumprimenta no elevador e comenta do clima, tem a recém chegada do interior que sempre vem me perguntar onde ficam os lugares e como chegar lá, tem aquele homem cuja mãe mora no mesmo prédio e ele sempre liga errado para o meu interfone quando quer falar com ela; tem até mesmo aquela senhora que uma vez me interfonou para perguntar se estava tudo bem depois de ouvir gritos de meu apartamento causados por uma discussão. Somos como uma grande família na qual ninguém sabe o nome de ninguém, mas todo mundo se importa.

Além destas companhias periféricas, meu apartamento está sempre cheio de visitantes. Visitantes e tralhas. Estão sempre esquecendo coisas por aqui. Não sei se é desculpa para voltar. Nem sempre voltam, nem sempre quero que voltem.

Acho que por ora isto basta.

Até mais.

,Sam Terri

Ovo – Casal

Ela gostava de mandar, ele gostava de obedecer. Só que no começo do relacionamento ninguém assumia.

Ela falava: “Meu amor, pega um copo d’água para mim, por favor”; ao que ele  respondia: “Folgada… Vou pegar só desta vez”.

Ambos achavam que o outro era ruim na cama.

“Ele não faz nada que eu gosto”

“Você pede o que você quer?”

“Ela não toma atitude, fica parada lá e eu tenho que fazer tudo.”

“Você pede o que você quer?”

Reclamavam sempre, mas nunca um com outro.

Acontece que um dia, naquele marasmo sexual de sempre, ela começou a, enfim, sentir alguma coisa. Preparou-se para gritar de prazer, mas ele interrompeu. Ela, desacreditada, não conseguiu ficar quieta. E o que falou surgiu com a carga de todas as frustrações acumuladas, inconscientes. Gritou:

“Volta agora e termina o que você começou, seu verme apático!”

Em seguida se calou, estampou choque e pena no rosto e se preparou para pedir muitas desculpas, até que percebeu o sorriso de canto de boca que se formou no rosto dele.

 

Depois deste dia passou a ser “Me busque um copo d’água. Você é desprezível”, seguido por “Sim, minha ama. Sou tão desprezível que nem mereço seu desprezo”

E ninguém mais reclamou do sexo.

DSC_2836_baixa

, Sam Terri