Complexo de Alice

cãonomato

Desde que era pequena demais para se lembrar, já escutava contos, muitas vezes era aquele da menina que seguiu um coelho e foi parar em um mundo paralelo onde as pessoas jogam criquet usando flamingos como taco.

Mesmo ouvindo muitas outras histórias, essa foi a que lhe marcou mais. Acho que por isso ela estava sempre seguindo animais, na esperança que um deles lhe guiasse até um buraco que a permitisse fugir daqui.

Mas os gatos não falam, os coelhos não tem pressa, lagartas não filosofam depois de fumar um narguile. Mesmo assim se recusou, até o fim de sua vida, a acreditar que não existia um país das maravilhas, e por todas as tardes que lhe foi permitido, tomou chá refletindo por quanto tempo dura o para sempre.

 

, Ella A.

Fugitiva

poeira subindo

Quando fugiu, ela achava que sabia para onde estava indo. Só se percebeu sem rumo quando não podia mais voltar. Assim que o conceito de lar não lhe pareceu mais concreto, notou que estava perdida. Às vezes corria, com pressa, querendo chegar mais rápido, mesmo sem saber para onde estava indo. Às vezes andava bem devagar, relutante, com medo de não conseguir lidar com o que viria. Outras vezes cambaleava, já exausta de andar, sabendo (achando) que tinha que continuar.

Ella A.

 

Pote

pote

Queria poder guardar um pedaço, um punhado, um pouco de tudo. Até que descobriu que nem tudo podia ser guardado, nem tudo se podia ter um pedaço, um punhado, um pouco, um nada. Nem tudo lhe pertencia, nem tudo lhe era controlável.

Deixou solto.

, Ella A.

Nada

casa

José morava no meio do nada. Não tinha vizinhos, não tinha amigos, não tinha parentes, não tinha ninguém. Aliás, pouco tinha. Tinha a casa. Uma casa velha e coisas velhas. Cama velha, geladeira velha, televisão velha. O que muito tinha eram reclamações. Da goteira, do frio, do travesseiro duro. Reclamava pro nada e o nada só escutava. As vezes um eco respondia, mas era só eco, não era nada.

Um dia entrou um besouro em sua casa. José o pisou e o chutou porta afora. E então voltou a ficar sozinho no meio do nada. Sem vizinhos, sem parentes, sem besouro, sem ninguém.

 

, Ella A.

Manhã

Aquela era uma manhã que parecia final de tarde. Parecia que já tinha sido, que já bastava. Acabada. Final.

Ontem já não estava mais lá, e o amanhã nunca chegava.

Aquela manhã sofria por antecipação e por retardo, com medo do futuro e angustia do passado. Aquela manhã, quando acabou, já não existia mais fazia um tempo.

A tranquilidade ás vezes é tão aflitiva.

cavalo

, Ella A.