Ovo – Casal

Ela gostava de mandar, ele gostava de obedecer. Só que no começo do relacionamento ninguém assumia.

Ela falava: “Meu amor, pega um copo d’água para mim, por favor”; ao que ele  respondia: “Folgada… Vou pegar só desta vez”.

Ambos achavam que o outro era ruim na cama.

“Ele não faz nada que eu gosto”

“Você pede o que você quer?”

“Ela não toma atitude, fica parada lá e eu tenho que fazer tudo.”

“Você pede o que você quer?”

Reclamavam sempre, mas nunca um com outro.

Acontece que um dia, naquele marasmo sexual de sempre, ela começou a, enfim, sentir alguma coisa. Preparou-se para gritar de prazer, mas ele interrompeu. Ela, desacreditada, não conseguiu ficar quieta. E o que falou surgiu com a carga de todas as frustrações acumuladas, inconscientes. Gritou:

“Volta agora e termina o que você começou, seu verme apático!”

Em seguida se calou, estampou choque e pena no rosto e se preparou para pedir muitas desculpas, até que percebeu o sorriso de canto de boca que se formou no rosto dele.

 

Depois deste dia passou a ser “Me busque um copo d’água. Você é desprezível”, seguido por “Sim, minha ama. Sou tão desprezível que nem mereço seu desprezo”

E ninguém mais reclamou do sexo.

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, Sam Terri

Corpo

O que preciso hoje é que me tenha como um corpo.

De nada nos adianta personalidades, que por ora só servem para nos transtornar, irritar. Hoje eu não suporto você.

Quero que vá embora, mas quero que fique. Então fique e deixe que se vá. Esteja aqui como corpo suado de pele quente, mas mantenha longe o cara de opiniões fortes e julgamentos imbecis.

Hoje não.

Então ofereço apenas meu corpo, esperando que me permita apenas seu corpo também.

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, Sam Terri

Kiki

stripper

O nome dela era Maria, ou talvez Mariana, não me lembro. Era conhecida mesmo por Kiki. Conhecida mesmo como a atração da noite. Conhecida mesmo como aquela que enlouquecia qualquer homem ou mulher que entrasse naquela casa de show.

A verdade é que ela não tinha talento nenhum a não ser tirar a roupa e dançar em câmera lenta, e mesmo nisso não era tão boa assim. O seu diferencial das outras meninas era que gostava de ser tocada. Oferecia seu peito para ser esmagado por mãos rechonchudas, se arrepiava com dedos percorrendo o desenho de sua cintura, encostava suas nádegas em colos maculados…

Sempre ficava cheirando a charuto depois do show, mas considerava aquele o cheiro da lascívia, o cheiro que a excitava. Masturbava-se pensando que alguém se masturbava pensando nela, e dormia sem tomar banho antes.

Seu sustento, seu deleite, sua fixação: ser desejada por homens nem tão desejáveis assim.

 

, Sam Terri

Bar da luz amarela

lampada

Tem um bar na Rua 13 que é conhecido pela luz amarela que sai pela porta avisando quando ele está aberto. Poucas pessoas lembram o nome do lugar, sempre se referem a ele como “o bar da luz amarela, aquele das batatas-fritas molengas”.

É um bar velho, ensebado. Cheira a mofo, a madeira apodrecida e a cachaça. Poeiras dançam no ar, criando um efeito bonito no contraluz, mas desagradável ao nariz. O banheiro é sujo, o chão é sujo, o balcão é sujo e as mesas, encardidas.

O dono é um mal-humorado. Chama-se Baltazar e faz questão de ser tratado por “Senhor”.  Um cara grande e gordo que usa suspensórios ao mesmo tempo que cinto. Aquela calça realmente precisa de ajuda para se manter no lugar! Ele não deixa ninguém dançar porque aquela música é feita para ser apreciada e não banalizada.

“Se querem carnaval, vão para o bar do Betão!”

Baltazar também inspeciona meticulosamente a mesa de sinuca após todos os jogos. Pagou caro e não quer ninguém estragando o tecido. Recusa-se a servir bebida quando julga que o cliente já passou do ponto, e não economiza xingamentos se alguém vomita em seu chão.

Apesar de tudo, o bar possui uma freguesia regular e adquire novos frequentadores a cada semana. Dizem sentirem-se em casa, à vontade. Além de que, a cerveja é barata e a garçonete, uma gostosa.

, Sam Terri

Aquele cigarro

Você acendeu seu cigarro estúpido e me deixou falando sozinha para fumar perto da janela. Seu apartamento já cheira à maconha, você cheira à maconha, então não me venha dizer que foi para a janela porque precisava fumar.

Eu percebi os pelo menos cinco minutos que você deixou o cigarro pendurado na boca sem acendê-lo. Era seu jeito de pensar. Eu já tinha me arrependido há muito tempo de ter falado qualquer coisa para você naquele dia. Eu queria ser aquele cigarro. Se eu fosse seu cigarro eu estaria na sua boca, em você. Aproveitaria você inteiro, você se aproveitaria de mim. E o melhor é que eu estaria queimando, queimando, e ao fim do nosso envolvimento eu teria me desfeito e não precisaria lidar mais com você.

Lidar com você. Há de se pensar que eu teria aprendido alguma coisa depois de tanto tempo nos relacionando. Mas não. Eu ainda sentia tanta raiva daquele cigarro estúpido pendurado na sua boca quanto eu senti na primeira vez que você fumou ao meu lado. Aquele cigarro estúpido que estava onde eu deveria estar, que era o que eu deveria ser.

 

Tive muitas chances de ser aquele cigarro. Mas quando eu pude ir embora, eu fiquei.

cigarro

, Sam Terri