Ali

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De repente o tempo parou e parece que só Laura percebeu.

As ondas não quebravam, as sombras não se moviam, o vento não passava. Não se ouvia sequer um gralhar, um cricrilar, o barulho do mar, de pisadas… Mal se ouvia o silêncio.

Os cheiros também pararam. Nada da maresia, do protetor solar.

Não se viam barcos, nem peixes, nem furinhos na areia.

 

Não tinha nada nem ninguém ali, nem Laura.

 

, Ella A.

Ovo – Ela e o ar

Ela tinha essa ânsia por liberdade. Essa ânsia de quem nunca foi livre e tenta alcançar uma quimera. Era uma sensação que a corroia por dentro e que piorava quando olhava o céu.

Queria poder voar. Queria que fosse sem ajuda de equipamento nenhum, só ela e o ar.

Já antes tentara alternativas propostas por humanos. Quando pequena, voou pela primeira vez de avião. Sentia-se incrível em ver tudo lá embaixo pequenininho, mas não era o suficiente. Então um dia voou de asa-delta. O vento batendo em sua cara dava uma sensação gostosa, podia também controlar seus movimentos e direção, mas também não queria só isso. Pulou de pára-quedas. Foi uma experiência emocionante, enquanto em queda livre, mas ela sabia estar amparada por um equipamento e logo teve de abrir o aparelho e se contentar com planar.

Quando conseguiu, alugou um apartamento no último andar do prédio residencial mais alto da cidade. Todo dia tirava um tempo para se debruçar na janela e sentir o vento no rosto, um calmante natural.

Teve de se contentar com isso. E se contentou até que um dia acordou em uma angustia descomunal. Seu coração parecia se contrair, se afundando no peito. Respirava com dificuldade, sentiu-se zonza. Precisava sair.

Foi para a varanda, se debruçou colocando todo seu tronco para fora, baixando a cabeça o máximo que pode, para a maior sensação de queda possível. O vento estava forte, batia em seu rosto deixando uma leve marca vermelha. De nada adiantava, não era o suficiente.

Subiu ao terraço aberto no topo do prédio. Já respirava melhor, mas seu coração ainda queria se introspectar. Apoiou-se na borda que separava o chão do céu. Debruçou-se como fizera na janela, desta vez ficando nas pontas dos pés.

Alguma força a puxou. Cientistas acusariam a gravidade, mas ela negaria e diria ser algo muito mais forte. A força a puxou e ela cedeu, caiu.

Era aquilo, aquela sensação que procurara a vida toda! Apenas ela e o ar. Ela e o ar se fundindo em um. Ela e o ar dançando livremente. Ela e o ar se conhecendo. Ela e o ar se amando…

 

Até que o ar a abandonou e ela e o ar virou ela e o chão.

ovo

, Ella A.

*Este conto faz parte do livro de contos Matrioska.

Cabelo branco

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Ele sofreu tanto da primeira vez que encontrou um cabelo branco! Arrancou-o rápido e, sem ninguém perceber, o jogou ao chão. Percebeu, atordoado, que já estava ficando velho.

Dizem por aí que quando se arranca um fio branco, nascem dois no lugar. Estão quase certos, porque o que aconteceu foi que nasceram cinco outros fios pouco depois. Ele arrancou todos, que voltaram a nascer, acompanhados de muitos outros.

Em cinco horas já estava com a cabeça toda coberta de cabelo branco e mal de alzheimer.

, Ella A.

Janela

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Uma das maiores frustrações da minha infância era a janelinha da cozinha da minha avó. A maldita era tão alta que eu não conseguia saber o que tinha por trás.

Eu ficava nas pontas dos pés e esticava os braços ao máximo, mas meus dedos nem chegavam perto de seu parapeito. Eu pulava, pulava, e mesmo assim ainda ficava longe. Eu pedia para minha avó me levantar, mas ela dizia que já estava velha demais pra segurar criança. Aí eu pedia outra vez e ela falava que não tinha nada para eu ver atrás daquela janela. É claro que isso apenas me deixava ainda mais curiosa.

E o tempo passou, até que eu fiquei crescida o suficiente para, destemida, subir em uma cadeira e, enfim, alcançar a janela. Sorri ansiosa, empurrei de lado a cortininha que a cobria e olhei através dos vidros.

A maior frustração da minha infância foi descobrir que atrás daquela janela tinha apenas uma parede de concreto, com uma janelinha tão alta que eu não conseguia ver dentro do outro apartamento.

 

, Ella A.

Cigana

A conheci em uma praça. Estava anoitecendo e eu tinha acabado de me sentar em um banco desconfortável de frente para o parquinho, onde crianças gritavam e corriam pela areia. Fiquei com vontade de brincar no balanço, mas logo desanimei só imaginando os olhares de reprovação que eu receberia. Eu era velha de mais pra o balanço.

A primeira vez que a vi, ela estava parada em pé ao lado de uma árvore: uma mulher de pele cor de caramelo com grandes olhos escuros. Seus cabelos cor de pólvora eram tão longos que chegavam à linha do seu quadril: ondulados, volumosos e cobertos por um véu vermelho. Usava uma saia até os pés, rodada e em camadas, em que o tecido preto se intercalava com o vermelho.

Eu devo tê-la olhado mais do que deveria, porque ela me olhou de volta e encarou. Rapidamente desviei o olhar, mas de canto de olho a percebi vindo em minha direção. O cheiro de cinzas e almíscar se aproximou com ela, que parou ao meu lado. Sua presença era muito forte e eu não consegui evitar olhá-la outra vez.

Ela disse oi e perguntou se eu tinha algum dinheiro para lhe dar. Eu não tinha e ela pareceu desapontada por um segundo, depois se sentou ao meu lado.

– Você se importa de eu ler sua mão?

Estendi a mão esquerda e a moça a segurou, suas mãos congelando me fizeram tremer, ou talvez fosse a energia que passávamos de uma para a outra. Não, eram as mãos congelando mesmo.

Ela passou os dedos pela palma da minha mão, fazendo um pouco de cócegas. Depois, olhou diretamente nos meus olhos, aquele olhar negro e penetrante… Um frio correu pela minha espinha. Então ela voltou a olhar para a minha palma. Ficamos naquela posição por longos minutos.

Ela devolveu minha mão e suspirou em frustração.

– Eu não sei o que estou fazendo. Eu confundo as linhas e esqueço a relação dos dedos.

– Você lê melhor cartas?

– Não, é muita informação pra levar em consideração.

– Então por que não faz outra coisa?

– Meu destino é ler mãos.

– Quem disse?

– Minhas mãos.

cigana

, Ella A.