Fogo

No topo da colina havia uma casa. Era a primeira coisa que se via depois da terceira curva da estrada que ligava uma cidade pequena à outra. Chamava a atenção não só por estar no topo da colina, mas também porque era apenas um esqueleto. Vigas cinzas e empoeiradas, apodrecidas de queimadas. Resquícios do que já fora um lar afundados em pó preto.

A residente se recusa a deixar a propriedade, apesar da situação precária e o risco eminente. Ela passa seus dias pintando. Preenche telas com o que viu: fogo crepitando, árvores secas, restos disformes, poeira densa.

Foi a segunda vez que a casa queimou. Na primeira, uma vela esquecida em uma ausência acabou-se por contaminar uma cortina e espalhou o fogo. Madeira queima fácil. A residente chegou tarde demais, e já sem poder sobre aquele destino: tudo se perdera. Foi quando começou a pintar. Era uma forma de lidar com toda a perda. Reconstruiu a casa aos pouquinhos, dia após dias, intercalando a restauração com as pinceladas.

Foram meses até que completou a reforma, mas valeu a pena. Renovada, a residência estava ainda mais bonita e aconchegante do que antes. Não tinha mais cheiro de fumaça. Tão logo as marcas do fogo ficaram apenas na memória.

Foi quando a pintora parou de pintar. Tentou inspiração nas flores que explodiam de cores ao redor da casa, nos pássaros que vinham lhe visitar, no céu de nuvens esparças e até mesmo na sua própria imagem no espelho. Não conseguia avançar dos rascunhos insosos.

Uma noite, insône e criativamente bloqueada, levantou-se da cama e acendeu um fósforo.

, Ella A.

O fim

Estou com o cu na mão.

A caminho de nosso encontro, penso e penso, preciso de estratégias. Preciso arquitetar o melhor jeito de lhe dizer. Preciso ter o controle das variáveis. Preciso ter o controle sobre você.

“Sinto muito, não dá mais”

Queria poder dizer isso e ir embora, mas você nunca vai me deixar ir sem explicar. Eu não queria ter de explicar. Eu não queria ter de ver os cantos da sua boca contorcendo de desgosto, me julgando e me desprezando.

Talvez eu devesse começar pedindo para que não me julgue. Isso não vai impedir você de me julgar, mas vai criar uma resistência sua para cumprir o prometido e me mostrar que não consigo lhe abalar. Isso já basta para mim.

Depois, eu sinto que preciso deixar claro o quão importante você foi. Talvez demonstrar minha gratidão faça você lembrar de mim com mais carinho, lembrar de mim com saudades.

Sim, eu estou extremamente preocupado com o que você vai pensar de mim depois. Eu quero que continue me amando. Quero que sofra por não poder mais me ter. Quero que continue acreditando que eu não sou um bosta inseguro. 

Então vou falar sobre tudo que você fez de bom por mim. Relembrar as risadas de madrugada, agradecer a paciência com meu medo de me assumir para os meus pais, celebrar cada presente, até os mais merdas, que você me deu. Eu vou até falar que você foi o melhor sexo de toda minha vida, mesmo que eu não tenha tido muito com o que comparar e que eu tenha certeza que ainda vou encontrar melhores.

Espero que isso deixe você emocionado, porque daí podemos chorar juntos. Como eu queria ver você chorar. Como eu queria que você insistisse para eu não lhe deixar. Você não vai fazer isso, tem orgulho demais. Isso não me impediria, de qualquer forma. 

Só depois de tudo isso, quando não restar mais nada para falar, vou explicar que preciso me encontrar, que eu me sinto afogado dentro de você, e preciso descobrir onde posso chegar sozinho.

Você vai perceber que estou tentando distorcer as coisas. Vai me acusar e eu serei culpado. Terei de assumir que não consigo mais ficar na sua sombra. Que cansei de ser “o namorado”, que cansei de ser o coadjuvante no seu show. Talvez eu até grite. Esse assunto me deixa desequilibrado e não vou conseguir me controlar. De repente estaremos em mais uma daquelas discussões pavorosas, e você vai me chamar de patético, de ridículo.

E quando você me chamar de ridículo… Eu não vou conseguir mais ficar lá. Não vou querer esperar você baixar ainda mais o nível. Já estarei exausto demais para continuar brigando. Vou virar as costas e ir, deixando você sozinho gritando como eu preciso crescer.

Esse será o fim de nós.

Futuro

Veio do futuro e muitas vezes lhe perguntavam como era lá.

Ela queria poder responder que o equilíbrio natural se estabeleceu. Que o quente aquece apenas o suficiente, e o frio ainda existe onde tem que existir. Que quem tem fome tem o que comer, e a água nasce e termina cristalina e cheia de vida. Lá a harmonia prevalece sobre o caos.
Queria poder dizer que no futuro as peles ainda se tocam, que as falas ainda fazem sentido, que ainda divertem. Lá as estrelas brilham mais intensamente e podemos vê-las melhor.
Queria poder dizer que de onde ela veio a chuva não cai ácida e o ar ainda invade as narinas. Queria poder dizer que no futuro se pode respirar.

Mas ela não pode dizer isso.

, Ella A.

Quem é você na noite?

A primeira vez que me perguntaram quem era eu na noite, eu não soube o que responder. Parecia uma oportunidade para lacrar, mas eu nem sabia o que era isso, quanto menos como fazê-lo, então só disfarcei e fui pegar outra bebida.

Foi só quando encontrei uma amiga de balada em um shopping, durante o dia, que comecei a entender que era realmente comum as pessoas assumirem diferentes personalidades em festas. Já tinha visto tantas vezes aquela menina louca, descendo até o chão sem se preocupar em derrubar bebida, gargalhando alto e sendo inconveniente com pessoas que não estavam na mesma vibe que ela, que foi bastante engraçado vê-la tão tímida, segurando seu cachorro minúsculo nas mãos e falando “com licença” antes de pedir uma informação para alguém.

Aquele dia ela fingiu que não tinha me visto, aliás. Acho que ela tinha vergonha da pessoa que era na noite. Algumas pessoas tem mesmo disso, mas não é com todo mundo. Muita gente se liberta nesse mundo com menos regras, e se sente mais a vontade para ser quem é. E era isso que eu queria ser na noite: eu mesma, mas melhor.

peruca

Quem colocou “drag” em Drag Queen não sabia do que tava falando.

, Sam Terri

Ponto e virgula

O ar faltava, era difícil de respirar. O vazio lhe repuxava o peito, como um buraco negro se formando dentro dela. A cabeça doía tentando parar as voltas e voltas que insistia em dar, e seus músculos insistiam em contrair e não soltar.

Estava cada vez mais difícil, mas dia após dia descobria que ainda era possível.

De ponto e virgula em ponto e virgula é possível escapar do ponto final?

, Ella A.

Reais demais

Foi estranho. Eu sentia que gostava de você de verdade. Gostei mais do que gostei de muita gente. E foi legal. Foi bem legal.

Só que passou.

Depois que passou, eu continuei tentando. Tentando porque eu queria acreditar que ainda era pra dar certo. Eu não tinha realmente motivos para parar de gostar de você. O sentimento só foi murchando… murchando…

Até que passou.

Comecei a sentir nojo de você. Eu estava bebendo toda noite que lhe encontrava, você não percebeu? Eu começava pouco antes de você chegar, para que quando eu lhe visse eu já não sentisse mais aquela aflição com o seu toque. Para eu poder enganar meus sentidos e sentir tesão. Se em algum  momento eu sentia que estava voltando pra realidade, eu bebia ainda mais.
Ia dormir agarrada em você, apagada.

As noites eloquentes. As manhãs… reais demais.

, Sam Terri

Revolução

Mulheres, vamos fazer uma revolução.

Primeiro de tudo, avisa pra todas que estamos juntas. Algumas ainda não perceberam isso e precisam da nossa paciência e didática, mas quando elas entenderem, elas virão para cá também.

Somos todas diferentes, temos urgências diferentes, mas estamos juntas.

Deixa claro que queremos é direitos e oportunidades iguais, respeito, autoridade e autonomia. Queremos não ter medo… e também queremos gozar.

Avisa que somos maioria da população, e lembre que a placenta foi onde todos se sentiram mais seguros.

Mulheres, vamos fazer uma revolução.
E ela já começou.

, Sam Terri

 

a baleia mais solitária do mundo

Existe uma baleia que canta em uma frequência acima das outras, e por isso não consegue se comunicar com nenhuma outra de sua espécie.
Os que escutam a história, por empatia ou por identificação, sentem-se mal pelo animal. A baleia mais solitária do mundo, é chamada. E em cada matéria que é escrita sobre ela há uma enorme lamentação em cima da sua solidão.

Mas e a baleia, como ela se sente?

Ela continua a nadar.

, Ella A.

Voyerismo

Acho que tem dois tipos de voyerismo: aquele de quem olha por prazer, e de quem olha por curiosidade.
Eu digo isso talvez tentando justificar uma mania esquisita que eu tenho. Eu gosto de assistir pegações alheias.
De forma alguma é porque sinto tesão naquilo, ou porque eu queira participar. Bom, as vezes eu sinto sim tesão naquilo e as vezes eu queria sim participar. Mas a maioria das vezes é puro entretenimento.
Acho interessante observar a dança que os corpos fazem durante a pegação. Como dois entram em sincronia, ou não. Ver como se olham, se tocam, se cheiram. Como, na grande maioria das vezes, agem como se estivessem completamente sozinhos. Eu me sinto assim também quando me enlaço com alguém. Como se só fosse eu e a pessoa. Parece tão fácil esquecer a música alta, o cheiro de suor e cigarro e os bêbados gritando. Parece fácil não perceber os possíveis voyers, aqueles que as vezes olham por tesão, ou as vezes por curiosidade.

, Sam Terri