Só dance

– Vamo pra pista, bicha.
– Eu não tô legal.
– Vamos, vai ficar tudo bem.
– Cadê minhas chaves? Acho que perdi meu telefone.
– Vamos dançar, bicha.
– Tô tonto. Acho que bebi um pouco demais.
– Eu vou dançar. Só quero dançar.
– Ele ligou pra você?
– Só dançar… Vem. Vai ficar tudo bem.

, Sam Terri

Romance piegas

Eu tava tão tão apaixonada que tava afim de escrever um romance. Mas um romance daqueles péssimos. Romance piegas. Ridículo. Queria escrever algo que cheirasse a açúcar, de tão melado.
Ia ser um romance que você leria e ia pensar até mal de mim. Ia se assustar com o tamanho da minha obsessão. Ia falar que não sabia que eu pensava assim, que talvez fosse melhor a gente se dar um espaço. Ou nem falaria nada, pois teria medo de lidar com tantas emoções.

Mas eu não escrevi. Deixei pra depois e acabou que quando chegou o depois, o sentimento tinha passado.
Talvez assim tenha sido melhor para todos.

, Sam Terri

Três

 

Era pra ser igual para os três. Ninguém era casal de ninguém, estava cada um por si e achamos que essa era a melhor maneira de garantir que ninguém ficaria de fora.
Pois bem, não foi bem assim.

Combinamos na minha casa.
Primeiro chegou ele. Estava com cheiro de sabonete e pós barba, ainda que não estivesse com a cara lisa, e vestido com sua usual camiseta listrada. Sorria muito, claramente empolgado pelo que estava para acontecer. Já eu não estava tão confiante assim, então sugeri da gente fumar um enquanto esperávamos.
Pouco depois já estávamos fazendo brincadeiras com a fumaça, jogando de uma boca a outra, em um jogo brisadamente sensual. Preliminar de chapados.

A campainha tocou quando ele já estava com a mão dentro da minha calcinha.

Abri a porta e ela entrou esbaforida, os cabelos longos colados na cara com suor. Contou que o metrô parou e teve que vir andando por duas estações. Falou sem vírgulas até que nos olhou e notou que também estávamos sem fôlego.

“Começaram sem mim, foi?”, riu-se. Uma risada gostosa. Que risada. Que olhar.

Ela se aproximou de mim, me puxou pelos cabelos e beijou meu pescoço. Sedenta, já comecei a tirar sua camiseta e sua saia, enquanto ela tirava a minha roupa toda, em uma sincronia quase que como uma dança, sem parar de nos beijar.
Olhei de relance para ele, o chamando para se aproximar, mas na realidade já não me importava mais e foi dificil disfarçar.

Ele até que me dava tesão, mas era ela que tirava meu ar.

,Sam Terri

A menina iludida

Naquele dia eu já cheguei bêbada na festa. Eu tinha acabado de vir de outro aniversário, em um bar com muita gente chata, onde não tinha muito o que fazer além de beber. Logo, eu estava tão bêbada quanto você possa imaginar.

É muito estranho entrar em um ambiente que nunca antes viu sóbria. As percepções não tem um referencial, então é tudo muito exagerado. O som parece muito mais alto, as paredes muito mais largas e as pessoas muito mais atraentes.

Como na maioria das festas, os grupos divididos falavam de um assunto em comum: a vida amorosa de alguém. Passei por alguns deles para decidir qual história me interessava mais.

Em um canto tinha uma menina apaixonada por outra que não estava respondendo suas mensagens direito, e todos ao redor liam cada virgula das mensagens enviadas em busca de brechas para interpretar as intenções que me pareciam muito claras: ela não estava interessada. Banal. Próximo!

No outro canto era apenas um menino se gabando de como tinha encontrado seu par perfeito. Eu tenho certa preguiça de pessoas muito apaixonadas, então não dei atenção. Próximo!

Do outro lado o clima era de mistério e minha curiosidade atiçou.
Uma garota contava que tinha conhecido um cara em um aplicativo, e que ele era incrível: bonito, gostoso, carinhoso, divertido. Eles já estavam ficando havia alguns meses, mas sempre na casa dela. Ele desviava do assunto sempre que ela falava de conhecer a casa dele, a família dele. Não tinha nenhuma rede social ou qualquer registro online.
Ao redor, cada pessoa sugeria uma possibilidade para aquilo tudo. Uma falou que ele com certeza estava usando um nome falso, outro completou dizendo que provavelmente porque já tinha uma família, outra questionou se ele não seria um refugiado da justiça. Alguém bastante cético disse que era tudo coisa da nossa cabeça, que uma pessoa não pode ter rede social que já é suspeito. Outra pessoa achou que talvez ele não tivesse casa.
Depois de certa insistência, a menina mostrou uma foto dele no aplicativo e eu logo o reconheci, mas tentei fingir surpresa como todos os outros. Aquele era o cara mais babaca que eu já tinha conhecido na minha vida, tinha estudado com ele na escola. Ele tinha rede social sim, casa, não tinha outra família nem era um criminoso. Ele era só babaca que não sabia ser sincero com seus sentimentos e tava só usando aquela menina para sexo.

Eu me questionava como poderia contar aquilo para aquela garota iludida, mas me chamaram para comer bolo e, como toda bêbada, só percebi que esqueci de avisá-la no dia seguinte ao acordar de ressaca.

,Sam Terri

 

Graça

Muitas vezes me percebi rindo sozinha, ao olhar pra você com o rosto impassível, pra só então entender que você não tinha feito uma piada.

É engraçado como você se leva tão a sério que não consegue entender como é engraçado.
Fala várias bobeiras achando que é poesia.

No início eu achava que era esse seu charme: ser um cara profundo. Hoje eu entendo que seu charme é essa sua boca carnuda, e o que me mantinha por perto era o jeito como você agarrava minha bunda, não a sua capacidade de inventar palavras e fingir que elas existem de verdade.

, Sam Terri

Pau

woodUma vez sonhei que tinha um pinto. Passei o sonho inteiro procurando um banheiro para poder me masturbar. Queria sentir como é ter uma ereção, como é ter uma parte do seu corpo que geralmente é mole, endurecida. Qual é a sensação daquele movimento de sobe e desce, sentindo a pulsação das veias. Queria muito saber como é ejacular. Ver a representação do meu orgasmo que tem cheiro e cor. Eu queria sentir o gosto do meu próprio sêmen, coçar minhas bolas,  e depois ver e sentir murchar.

, Sam Terri

 

Alma gêmea

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Quando eu conheci o Rafa eu estava tão bêbada que menti meu nome porque achei engraçado. Ele também estava tão bêbado que acreditou que eu chamava Jennifer, mesmo eu demorando uns bons segundos pra responder quando ele perguntou, e eu não atendendo quando ele gritava esse nome.

Abandonamos todas as pessoas que estavam com a gente na festa, e acabamos passando a noite toda um ao lado do outro, jogados em um puff velho em um canto da casa, bebericando de uma garrafa de vodka barata.

Eu estava apaixonada por ele, e ele estava apaixonado por um menino que não tinha respondido sua última mensagem no celular. Mas isso não me impediu, não o impediu, e passamos horas de incrível carinho e conexão.

Até hoje ele me chama de Jennifer. Agora namora o menino que acabou respondendo três dias depois, e sempre me diz que é uma pena que ele não acredite em alma gêmea, porque ele sabe que na verdade eu é que sou a dele.

, Sam Terri