Tá corrido.

Rolou umas tretas aqui, vou ter que desmarcar. Mas vamos sim, a gente combina! Mas é que não dá esse mês, tá corrido. No próximo dá, mas talvez não no feriado. A gente vê mais perto. Tá corridíssimo. Não tô com tempo nem pra Madona. Perdoa a demora, vi a mensagem, respondi mentalmente, nem vi que não respondi. Você vai na festa da Julia? Mara, a gente conversa lá por uns 3, 4 minutos. Vai ser bom ver você! Quanto tempo, né? Vamo marcar uma cerveja. Não posso esse final de semana não, mas desse semestre não passa!

Falta de tempo na verdade é falta de organização, ou honestidade, ou interesse.

, Sam Terri

Ideia ruim

Eu não acredito em horóscopo, mas leio o meu todo dia. O daquela manhã me alertava: “cuidado com extravagâncias amorosas”, e naquela noite eu me declarei para você e viramos a madrugada de bar em bar, acabando de mãos dadas deitados na grama suja de um parque qualquer, vendo o sol nascer.

Apesar de todo o fervor, a gente já era uma ideia ruim. Não percebi isso quando fomos expulsos aos gritos do parque, segurando meu sutiã na mão. Mas estava claro: ideia ruim.

Eu devia acreditar mais no meu horóscopo.

, Sam Terri

O Sátiro

Eu era virgem quando eu conheci aquele sátiro. Virgem que só. Ele, por outro lado, o mais depravado possível.
Ele chamava Raul, e falava olhando na boca das pessoas.

Quando o avistei pela primeira vez, foi como se tudo ao redor dele ficasse escuro. Ele brilhava. Falava com paixão sobre qualquer assunto, as vezes até gritando, enfático. Esse era seu principal charme, assim como seu sorriso encantador.
Aproximei-me, curiosa, e ele logo parou de falar com as outras pessoas e me olhou, levantando uma das sobrancelhas.
– Vi que você tava me olhando. Finalmente criou coragem de vir me dar oi? – ele disse. Uma frase meio babaca, mas o sorrisinho de canto de boca fazia eu não me importar com isso. Fiquei feliz com aquela atenção que ele decidiu me dar.
Fomos para um canto mais vazio, sentamos em umas almofadas jogadas em um colchão velho e ele colocou a mão na minha coxa. Arrepiei com aquele toque, mas deixei. Despertou em mim a vontade de despudorar.
Eu não me lembro sobre o que conversamos. Acho que ele falava mais do que eu, que estava enfeitiçada com o jeito como ele me olhava, com aquela cara de safado.
Fiquei completamente distraída, pensando apenas como queria muito que ele me beijasse. Em nenhum momento parecia que ele faria mesmo isso. Era como se ele estivesse ali para me tentar. Em meio a risadas ele se aproximava cada vez mais do meu rosto, logo se afastando novamente. Ele passava as mãos pelos meus cabelos, e descia por todo meu braço, brincando com minhas mãos, arrepiando meus pelos.
A virgem em mim me impedia de tomar qualquer atitude.
Só que a tensão sexual crescia a cada minuto e chegou uma hora que não consegui mais aguentar. Cedi a seus encantos. Puxei-o pelos cabelos e o beijei, lambi, mordi.

Nunca mais o encontrei em lugar nenhum. Gosto de pensar que ele era mesmo um ser mitológico que apareceu na minha vida para me ajudar a aceitar melhor minha sexualidade.
Depois dele eu nunca mais fui tão virgem, mesmo que eu não tenha perdido a virgindade naquela noite.

, Sam Terri

Só dance

– Vamo pra pista, bicha.
– Eu não tô legal.
– Vamos, vai ficar tudo bem.
– Cadê minhas chaves? Acho que perdi meu telefone.
– Vamos dançar, bicha.
– Tô tonto. Acho que bebi um pouco demais.
– Eu vou dançar. Só quero dançar.
– Ele ligou pra você?
– Só dançar… Vem. Vai ficar tudo bem.

, Sam Terri

Romance piegas

Eu tava tão tão apaixonada que tava afim de escrever um romance. Mas um romance daqueles péssimos. Romance piegas. Ridículo. Queria escrever algo que cheirasse a açúcar, de tão melado.
Ia ser um romance que você leria e ia pensar até mal de mim. Ia se assustar com o tamanho da minha obsessão. Ia falar que não sabia que eu pensava assim, que talvez fosse melhor a gente se dar um espaço. Ou nem falaria nada, pois teria medo de lidar com tantas emoções.

Mas eu não escrevi. Deixei pra depois e acabou que quando chegou o depois, o sentimento tinha passado.
Talvez assim tenha sido melhor para todos.

, Sam Terri

Três

 

Era pra ser igual para os três. Ninguém era casal de ninguém, estava cada um por si e achamos que essa era a melhor maneira de garantir que ninguém ficaria de fora.
Pois bem, não foi bem assim.

Combinamos na minha casa.
Primeiro chegou ele. Estava com cheiro de sabonete e pós barba, ainda que não estivesse com a cara lisa, e vestido com sua usual camiseta listrada. Sorria muito, claramente empolgado pelo que estava para acontecer. Já eu não estava tão confiante assim, então sugeri da gente fumar um enquanto esperávamos.
Pouco depois já estávamos fazendo brincadeiras com a fumaça, jogando de uma boca a outra, em um jogo brisadamente sensual. Preliminar de chapados.

A campainha tocou quando ele já estava com a mão dentro da minha calcinha.

Abri a porta e ela entrou esbaforida, os cabelos longos colados na cara com suor. Contou que o metrô parou e teve que vir andando por duas estações. Falou sem vírgulas até que nos olhou e notou que também estávamos sem fôlego.

“Começaram sem mim, foi?”, riu-se. Uma risada gostosa. Que risada. Que olhar.

Ela se aproximou de mim, me puxou pelos cabelos e beijou meu pescoço. Sedenta, já comecei a tirar sua camiseta e sua saia, enquanto ela tirava a minha roupa toda, em uma sincronia quase que como uma dança, sem parar de nos beijar.
Olhei de relance para ele, o chamando para se aproximar, mas na realidade já não me importava mais e foi dificil disfarçar.

Ele até que me dava tesão, mas era ela que tirava meu ar.

,Sam Terri

A menina iludida

Naquele dia eu já cheguei bêbada na festa. Eu tinha acabado de vir de outro aniversário, em um bar com muita gente chata, onde não tinha muito o que fazer além de beber. Logo, eu estava tão bêbada quanto você possa imaginar.

É muito estranho entrar em um ambiente que nunca antes viu sóbria. As percepções não tem um referencial, então é tudo muito exagerado. O som parece muito mais alto, as paredes muito mais largas e as pessoas muito mais atraentes.

Como na maioria das festas, os grupos divididos falavam de um assunto em comum: a vida amorosa de alguém. Passei por alguns deles para decidir qual história me interessava mais.

Em um canto tinha uma menina apaixonada por outra que não estava respondendo suas mensagens direito, e todos ao redor liam cada virgula das mensagens enviadas em busca de brechas para interpretar as intenções que me pareciam muito claras: ela não estava interessada. Banal. Próximo!

No outro canto era apenas um menino se gabando de como tinha encontrado seu par perfeito. Eu tenho certa preguiça de pessoas muito apaixonadas, então não dei atenção. Próximo!

Do outro lado o clima era de mistério e minha curiosidade atiçou.
Uma garota contava que tinha conhecido um cara em um aplicativo, e que ele era incrível: bonito, gostoso, carinhoso, divertido. Eles já estavam ficando havia alguns meses, mas sempre na casa dela. Ele desviava do assunto sempre que ela falava de conhecer a casa dele, a família dele. Não tinha nenhuma rede social ou qualquer registro online.
Ao redor, cada pessoa sugeria uma possibilidade para aquilo tudo. Uma falou que ele com certeza estava usando um nome falso, outro completou dizendo que provavelmente porque já tinha uma família, outra questionou se ele não seria um refugiado da justiça. Alguém bastante cético disse que era tudo coisa da nossa cabeça, que uma pessoa não pode ter rede social que já é suspeito. Outra pessoa achou que talvez ele não tivesse casa.
Depois de certa insistência, a menina mostrou uma foto dele no aplicativo e eu logo o reconheci, mas tentei fingir surpresa como todos os outros. Aquele era o cara mais babaca que eu já tinha conhecido na minha vida, tinha estudado com ele na escola. Ele tinha rede social sim, casa, não tinha outra família nem era um criminoso. Ele era só babaca que não sabia ser sincero com seus sentimentos e tava só usando aquela menina para sexo.

Eu me questionava como poderia contar aquilo para aquela garota iludida, mas me chamaram para comer bolo e, como toda bêbada, só percebi que esqueci de avisá-la no dia seguinte ao acordar de ressaca.

,Sam Terri