Fogo

No topo da colina havia uma casa. Era a primeira coisa que se via depois da terceira curva da estrada que ligava uma cidade pequena à outra. Chamava a atenção não só por estar no topo da colina, mas também porque era apenas um esqueleto. Vigas cinzas e empoeiradas, apodrecidas de queimadas. Resquícios do que já fora um lar afundados em pó preto.

A residente se recusa a deixar a propriedade, apesar da situação precária e o risco eminente. Ela passa seus dias pintando. Preenche telas com o que viu: fogo crepitando, árvores secas, restos disformes, poeira densa.

Foi a segunda vez que a casa queimou. Na primeira, uma vela esquecida em uma ausência acabou-se por contaminar uma cortina e espalhou o fogo. Madeira queima fácil. A residente chegou tarde demais, e já sem poder sobre aquele destino: tudo se perdera. Foi quando começou a pintar. Era uma forma de lidar com toda a perda. Reconstruiu a casa aos pouquinhos, dia após dias, intercalando a restauração com as pinceladas.

Foram meses até que completou a reforma, mas valeu a pena. Renovada, a residência estava ainda mais bonita e aconchegante do que antes. Não tinha mais cheiro de fumaça. Tão logo as marcas do fogo ficaram apenas na memória.

Foi quando a pintora parou de pintar. Tentou inspiração nas flores que explodiam de cores ao redor da casa, nos pássaros que vinham lhe visitar, no céu de nuvens esparças e até mesmo na sua própria imagem no espelho. Não conseguia avançar dos rascunhos insosos.

Uma noite, insône e criativamente bloqueada, levantou-se da cama e acendeu um fósforo.

, Ella A.

Futuro

Veio do futuro e muitas vezes lhe perguntavam como era lá.

Ela queria poder responder que o equilíbrio natural se estabeleceu. Que o quente aquece apenas o suficiente, e o frio ainda existe onde tem que existir. Que quem tem fome tem o que comer, e a água nasce e termina cristalina e cheia de vida. Lá a harmonia prevalece sobre o caos.
Queria poder dizer que no futuro as peles ainda se tocam, que as falas ainda fazem sentido, que ainda divertem. Lá as estrelas brilham mais intensamente e podemos vê-las melhor.
Queria poder dizer que de onde ela veio a chuva não cai ácida e o ar ainda invade as narinas. Queria poder dizer que no futuro se pode respirar.

Mas ela não pode dizer isso.

, Ella A.

Ponto e virgula

O ar faltava, era difícil de respirar. O vazio lhe repuxava o peito, como um buraco negro se formando dentro dela. A cabeça doía tentando parar as voltas e voltas que insistia em dar, e seus músculos insistiam em contrair e não soltar.

Estava cada vez mais difícil, mas dia após dia descobria que ainda era possível.

De ponto e virgula em ponto e virgula é possível escapar do ponto final?

, Ella A.

a baleia mais solitária do mundo

Existe uma baleia que canta em uma frequência acima das outras, e por isso não consegue se comunicar com nenhuma outra de sua espécie.
Os que escutam a história, por empatia ou por identificação, sentem-se mal pelo animal. A baleia mais solitária do mundo, é chamada. E em cada matéria que é escrita sobre ela há uma enorme lamentação em cima da sua solidão.

Mas e a baleia, como ela se sente?

Ela continua a nadar.

, Ella A.

Medo

Eu entendo seus medos. Eu também tenho os meus, que são bastante diferentes do seus, mas também são medos.
E se é usada a mesma palavra para descrever coisas tão diferentes, deve ser porque de alguma forma elas são parecidas.

Esses medos.
Os seus, os meus.
Eles são reais.
Não adianta tentar racionalizar, porque isso não vai reduzi-los, apenas intensificá-los.
Proponho então, uma metáfora:

Tubarões são assustadores mesmo quando se está em terra firme. Eles já assustam no “e se”.
Imaginar eles sentindo seu cheiro, se aproximando… rasgando sua pele. A dor. Se afogar, ficar sem ar. Toda a tragédia e sofrimento antes do seu coração parar.
É mesmo terrível, e o tubarão realmente pode lhe matar.

O que eu acho que você não percebeu ainda é que você já está dentro do mar. E dentro do mar não dá mais para pensar no tubarão. Ele está lhe rodeando, ele já viu você.
Não pensa nele.
Nade.
Nade sem olhar o tubarão.
Só dessa forma você terá chance de chegar em terra firme outra vez.

O medo é útil quando lhe alerta, mas não quando lhe paralisa.

, Ella A.

Tempo 5

Só consegui chegar em casa agora.

Acontece que ao ultrapassar a barreira de tempo que me impedia de continuar a vida e sair daquele anteontem, fui parar em algum universo paralelo de onde foi muito dificil escapar.

Esses cinco dias que passaram aqui foram três semanas naquele lugar. O céu era cor de grama e a grama tinha cor de céu. No lugar do sol era um relógio de cinco ponteiros. Um para o dia, um para o mês, um para a hora, um para o minuto e um, bem fininho, para o segundo. E era só isso. Andava horas sem saber se tinha pegado o caminho certo.

Finalmente voltei. Senti falta do meu gato, e minha cama parece agora bem mais aconchegante.

 

, Ella A.