Vizinho

Tinha um senhor bem velhinho que era meu vizinho. A casa dele era a única da rua que ainda usava lâmpada incandescente.

Ele sempre chamava eu e meu irmão para visitar, nos servia chá e nos contava histórias de seu tempo de criança. Aposto que metade delas era inventada, duvido que ele conseguisse lembrar de tantas coisas assim… Naquela idade!

A minha história favorita era a de quando ele pulava o muro dos outros para roubar frutas direto do pé. Reclamei que ele não tinha árvore para eu roubar fruta dele, ele reclamou que ele não tinha quintal para ter árvore para eu roubar fruta dele. Depois daquele dia, ele sempre deixou uma cesta com frutas em frente à porta.

Nós três jogávamos baralho e ele sempre deixava a gente ganhar. Meu irmão preferia tranca, o meu vizinho fazia questão de que jogássemos poker, porque ensinava lição de vida… Era o que ele dizia, pelo menos. Eu só queria jogar baralho.

A gente o ajudava com a louça, e em troca ele nos fazia um bolo de chocolate delicioso. Era viúvo, e a receita ele tinha aprendido com a mulher dele, que ele dizia ter sido uma pessoa extraordinária. Ele sempre falava não saber se existia vida após a morte, mas que torcia pra que sim, só para poder reencontrá-la.

E eu espero que ele a tenha reencontrado. Assim, um dia nos reencontraremos e eu, ele e meu irmão vamos jogar baralho outra vez.

lampada

, Ella A.

Aquele cigarro

Você acendeu seu cigarro estúpido e me deixou falando sozinha para fumar perto da janela. Seu apartamento já cheira à maconha, você cheira à maconha, então não me venha dizer que foi para a janela porque precisava fumar.

Eu percebi os pelo menos cinco minutos que você deixou o cigarro pendurado na boca sem acendê-lo. Era seu jeito de pensar. Eu já tinha me arrependido há muito tempo de ter falado qualquer coisa para você naquele dia. Eu queria ser aquele cigarro. Se eu fosse seu cigarro eu estaria na sua boca, em você. Aproveitaria você inteiro, você se aproveitaria de mim. E o melhor é que eu estaria queimando, queimando, e ao fim do nosso envolvimento eu teria me desfeito e não precisaria lidar mais com você.

Lidar com você. Há de se pensar que eu teria aprendido alguma coisa depois de tanto tempo nos relacionando. Mas não. Eu ainda sentia tanta raiva daquele cigarro estúpido pendurado na sua boca quanto eu senti na primeira vez que você fumou ao meu lado. Aquele cigarro estúpido que estava onde eu deveria estar, que era o que eu deveria ser.

 

Tive muitas chances de ser aquele cigarro. Mas quando eu pude ir embora, eu fiquei.

cigarro

, Sam Terri

 

Inseto Narcisista

morreu

Acho que ele foi beber água e caiu.

Não acho não. Acho que ele se apaixonou pelo próprio reflexo, pulou na água para tentar se abraçar e acabou morrendo afogado.

Ou talvez as coisas em casa não estavam tão bem. A vida não está fácil para ninguém, as vezes ele se afogou porque quis.

Do que eu estou falando? Ele pode ter morrido enquanto voava e só depois caído na água.

Posso estar sendo mórbida, talvez. O inseto não seria o único a gostar de flutuar para relaxar.

Eu devia ter perguntado para ele.

 

, Ella A.

Quero ser Sophie Calle

 

“Histórias reais” é um livro de Sophie Calle que contém fotografias acompanhadas de pequenos textos contando histórias de sua vida.

Estou longe de ter uma vida tão legal quanto Sophie, e histórias nem tão reais é o que me resta. O blog é isso.

E é, não tem muito o que explicar.

 

Minto, tenho mais uma coisa importante para explicar sim.

Este blog pertence a dois pseudônimos em uma tentativa de heteronímia. Ella A. representa a fantasia, a inocência. Sam Terri é o carnal, a malícia.

 

muito prazer, seja bem vindo.