Pós

Já passava das quatro horas da madrugada. As latas, garrafas e pacotes vazios de salgadinhos já eram recolhidos e a festa aos poucos foi embora.
– Vocês vão ficar aí?
Não era necessário responder àquela pergunta. Eu estava sentada na areia enrolando os cabelos dele em minha mão, enquanto ele descansava na minha perna.

E então não havia mais ninguém lá, só eu e ele. Eu, ele e o barulho do mar agitado.
O seu olhar estava perdido. Olhava pro mar, pra mim, pro céu preto. Acho que até por isso eu não queria dizer nada.
Deixa ele na viagem dele que eu fico na minha.
Acariciei-lhe a orelha e ele fechou os olhos, voltei aos nós do cabelo, imaginando se era possível que ele dormisse lá mesmo. Olhei para a escuridão do horizonte sem querer que amanhecesse.
– Ei.
– O que foi?
– Eu acho que o tempo parou. Você também percebeu?
Não respondi. Ele tinha ido para longe, muito longe. E só o que eu podia fazer era esperar ele voltar.

correndo pelado 2

, Sam Terri

Banheiros

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Eu sempre demorei em banheiros públicos mais do que eu precisava. É que eu gosto de analisar os traços e conteúdos das mensagens rabiscadas na porta do cubículo onde fica a privada.

Às vezes é apenas uma piada escatológica e nada original, e às vezes é um recado para alguém que nunca vai ler aquilo, como um “Eu te amo, Ricardo”. Mas muitas vezes o que eu acabo lendo mesmo são xingamentos banais e genéricos.

E é por isso que eu acabo demorando muito nos banheiros públicos. Se eu não encontro nada interessante escrito, escrevo eu. Mas eu gosto de escrever putaria. Sempre em poucas palavras e com vocabulário chulo, descrevo uma ereção, ou um orgasmo, ou apenas a história de um toque.

Eu não sei o porquê eu faço isso. Não acho realmente que alguém vá prolongar o xixi pra uma masturbação em um banheiro fedido apenas por causa de algumas palavras. Eu só faço.

Talvez fosse mais fácil se eu simplesmente desenhasse um pênis ou uma vagina mal desenhada, caricata até, mas eu prefiro as palavras.

Seria mais fácil usar um vibrador, mas eu prefiro os dedos.

Certas coisas a gente só faz.

 

, Sam Terri

Esquecimento

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Na primeira vez foi sem querer. Meu brinco tinha caído enquanto você beijava minha orelha, e – claro, distraída por você – nem percebi. Esqueci-o lá no seu chão.

Mas aí você me ligou no dia seguinte dizendo que o tinha encontrado e gostaria de me ver para devolvê-lo. Consegue entender agora porque eu constantemente esquecia minhas coisas na sua casa?

Sempre funcionou, e eu continuei deixando objetos meus para trás. Você sempre os encontrava, e sempre os devolvia.

Isso até o dia que eu percebi que nos encontrávamos apenas por isso, e acabávamos transando por pura conveniência.

Então, por teste, da última vez não esqueci nada.

E acabou sendo mesmo a última vez.

 

, Sam Terri

Memória seletiva

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Eu lembro bem que foi em um dia que não transamos porque eu estava menstruada. Era um sábado. Lua cheia, poucas estrelas. Cheiro de cigarro, de café. Frio, tão frio que o cobertor não foi o suficiente e tive que deixar você me abraçar para eu conseguir dormir, apesar de eu não gostar de conchinha. Cheiro de amaciante também. Beethoven e Edward Sharpe. Comi uma barra de chocolate branco, acho que este foi meu jantar. Da janela passei um bom tempo olhando para um parque escuro. Chão gelado. O filme eu já tinha visto, mas já há tanto tempo que foi como assistir pela primeira vez. Dedos gelados dentro de duas meias. Muito barulho do lado de fora, invadindo o lado de dentro.  Sono leve. Travesseiro baixo. O despertador tocando mesmo sendo domingo. Um chá quente com mel ao invés de açúcar.

Lembro de tudo isso, mas não lembro muito bem de você. Só lembro que parecia apaixonado e que gemia bonitinho, mas talvez eu lembre errado.

 

, Sam Terri

Injusto

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Pedi que ficasse, mas mesmo assim você se foi. Não é justo abandonar uma garota seminua. Não é justo que depois disso tudo quem continua a se preocupar sou eu.

Eu errei também. Tentei lhe comprar com meu corpo quando você não estava à venda. Mas meus erros não justificam os seus. Não é justo abandonar uma garota nua.

Sem pudores, sem me esconder, sem joguinhos, sem segredos. Eu estava completamente nua e mesmo assim você se foi.

Nem tive a chance de lhe ver sem roupas. Por que não me deixa lhe ver sem roupas?

 

, Sam Terri