Tronco

Seus dedos grandes e longos se assemelhavam a raízes grandes e longas que sustentava um tronco robusto e atarracado, que na verdade era um braço normal. Mas de verdade verdade mesmo,ele só queria ouvir o barulho das folhas secas.

mãos nas folhas

 

, Ella A.

O mistério das portas

Não demorou a perceber que grande parte das portas não tinham fechaduras grandes o suficiente para que se olhasse através delas, como via nos desenhos animados. E isso o incomodou.

Queria tocar a campainha das casas que mais lhe despertavam curiosidade, mas acabava apenas olhando, tentando imaginar o que havia lá dentro. Se era uma família grande, uma família pequena, só o dono e seu gato. Ou se era algo mais macabro, como uma sala vazia com paredes manchadas de sangue, com apenas uma cadeira de madeira no centro. As vezes podia nem ter nada, ser uma casa abandonada que não teve tempo de ceder e se desfazer. Ou podia ter muitas coisas, tantas que ele não conseguiria ver tudo nem se conseguisse entrar.

Sua inquietação lhe perseguiu a vida inteira, mas a partir de certa idade parou de guardá-la para si. Começou a fazer desenhos a caneta em papel e colá-los com durex nas portas, esperando que com aquilo o morador sentisse tanta curiosidade quanto ele sentiu.

porta

 

PS: Esta é a foto da minha porta, e o que tem atrás dela. Com isso retribuo o desenho que ele me deixou.

 

, Ella A.

Era aqui que iam naquele dia que não vieram

Ele descreveu para ela: “Tem uma parede branca. Quer dizer. Inicialmente era branca, mas o tempo a fez meio cinza. Mas acho que se eu disser que é uma parede cinza, você não vai encontrar. É uma parede branca suja. Suja de água suja, e talvez outros tipos de sujeira. Suja de tempo. Caindo sobre ela você vai encontrar vários galhos do que parece ser uma planta só, mas desconfio que sejam duas do mesmo tipo que foram plantadas bem juntas. Mas não sei, isso não quer dizer nada. O importante é que você vai ver uma parede branca suja com galhos saindo do seu topo, como se estivessem tentando escapar. Não teriam como escapar de todo jeito, uma vez que estão ligados a uma árvore com raízes que ligam ao chão. Isso também não quer dizer nada. Mas, bem… São emaranhados embaraçados, folhudos e folhosos. Flores de um rosa arroxeado, e folhas verdes, algumas meio marrom, mas a maioria verde. É isso que tem na parede branca suja. Ficou claro? É lá que iremos nos encontrar. Estarei lá às duas.”

E é aqui que eles iam naquele dia que não vieram.

planta

, Ella A.

Pesadelo

re na areia

A linha se formou embaixo do seu pé, não conseguiu evitar de pisá-la. Em pânico, correu, pisando em várias outras linhas.

A cada linha pisada, se assustava, e num salto acabava pousando em outra linha.

Acordou ofegante daquele que julgou ser seu pesadelo mais perturbador.

 

 

, Ella A.

 

Milo

mar

Eu tinha um amigo chamado Milo.

Milo é uma dessas pessoas que não conseguem ficar muito tempo em um lugar só, por isso que digo que eu tinha um amigo chamado Milo. Não tenho mais. Milo foi embora faz um tempo e acho que ele não vai mais voltar.

Lembro dele como um cara legal, mas também um cara de filosofias infundadas e epifanias baratas.

Uma vez, por exemplo, lhe contei um problema e ele, inalando fumaça e com expressão de muita sabedoria, me aconselhou: “Feche os olhos e dance”.

Achei aquela uma frase esquisita, manjada. Uma frase esquisita e manjada do tipo que você encontra entre aspas como epígrafe em um livro de auto ajuda. Esquisita e manjada do tipo que você ri quando escuta de alguém que fala sério.

Mas ao invés de achar graça, eu sorri e perguntei “Você gostaria de dançar comigo?”

E como eu disse, Milo foi embora faz um tempo e acho que ele não vai mais voltar.

 

, Ella A.