Pediu para eu arranhar. Arranhei e gostei.
Mas aí você pediu para eu parar, reclamou que estava ardendo…
Droga, você.
(e sabe que isso tudo é uma metáfora, não é?)
, Sam Terri
nem tão fictícias
Eu tinha um amigo chamado Milo.
Milo é uma dessas pessoas que não conseguem ficar muito tempo em um lugar só, por isso que digo que eu tinha um amigo chamado Milo. Não tenho mais. Milo foi embora faz um tempo e acho que ele não vai mais voltar.
Lembro dele como um cara legal, mas também um cara de filosofias infundadas e epifanias baratas.
Uma vez, por exemplo, lhe contei um problema e ele, inalando fumaça e com expressão de muita sabedoria, me aconselhou: “Feche os olhos e dance”.
Achei aquela uma frase esquisita, manjada. Uma frase esquisita e manjada do tipo que você encontra entre aspas como epígrafe em um livro de auto ajuda. Esquisita e manjada do tipo que você ri quando escuta de alguém que fala sério.
Mas ao invés de achar graça, eu sorri e perguntei “Você gostaria de dançar comigo?”
E como eu disse, Milo foi embora faz um tempo e acho que ele não vai mais voltar.
, Ella A.
Outro dia sonhei que fui a um psicólogo que me atendia completamente nu. Ele estava sentado lá na cadeira dele, de pernas cruzadas, escondendo o pênis, impedindo-o de ser notado caso se manifestasse, atrapalhando a terapia.
Enquanto isso, eu não deitava no divã, apenas sentava de frente para o homem, mantendo contato visual e contando histórias inventadas porque eu não queria que ele pensasse mal de mim. E ele pensaria, se eu contasse as histórias de verdade.
O olhar de concentração dele me desconcentrava, e minha linha narrativa era falha, péssima. Não sei como ele podia acreditar em mim.
Acordei pelada.
, Sam Terri
Na primeira vez foi sem querer. Meu brinco tinha caído enquanto você beijava minha orelha, e – claro, distraída por você – nem percebi. Esqueci-o lá no seu chão.
Mas aí você me ligou no dia seguinte dizendo que o tinha encontrado e gostaria de me ver para devolvê-lo. Consegue entender agora porque eu constantemente esquecia minhas coisas na sua casa?
Sempre funcionou, e eu continuei deixando objetos meus para trás. Você sempre os encontrava, e sempre os devolvia.
Isso até o dia que eu percebi que nos encontrávamos apenas por isso, e acabávamos transando por pura conveniência.
Então, por teste, da última vez não esqueci nada.
E acabou sendo mesmo a última vez.
, Sam Terri
Algumas pessoas possuem manias estranhas, Maria não era uma delas. Sua mania era incomum, mas não era estranha. Era?
Maria gostava de texturas, só isso.
Tecidos, grãos, paredes, embalagens, peles… Tudo era interessante, tudo possuía seu valor sensorial. Alguns chamariam de compulsão, mas era apenas uma mania: ela estava sempre tocando.
Por vezes a vontade de sentir superfícies era tão forte, que Maria acabava tocando em estranhos, ou em objetos de estranhos, ou em coisas nojentas.
Não se permitia frequentar museus, mas fora isso, não era uma mania muito ruim.
Aliás, sendo Maria uma pessoa tão apática como era, bom para ela que ao menos sentisse as coisas com as mãos.
, Ella A.