Toque

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Algumas pessoas possuem manias estranhas, Maria não era uma delas. Sua mania era incomum, mas não era estranha. Era?

Maria gostava de texturas, só isso.

Tecidos, grãos, paredes, embalagens, peles… Tudo era interessante, tudo possuía seu valor sensorial. Alguns chamariam de compulsão, mas era apenas uma mania: ela estava sempre tocando.

Por vezes a vontade de sentir superfícies era tão forte, que Maria acabava tocando em estranhos, ou em objetos de estranhos, ou em coisas nojentas.

Não se permitia frequentar museus, mas fora isso, não era uma mania muito ruim.

 

Aliás, sendo Maria uma pessoa tão apática como era, bom para ela que ao menos sentisse as coisas com as mãos.

 

, Ella A.

Livro Matrioska

capa matrioska

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,Ella  A.

o menino da janela_

 

Uma semana de Ella – dia 6

Vi Sam algumas vezes.

A primeira coisa que notei foi que ela está sempre acompanhada de ao menos uma pessoa, parece que sente desprezo pela solidão. Algumas pessoas são assim, eu acho. Se fica sozinha por um instante, trata de tentar conversa com quem quer que esteja perto, foi assim que acabamos conversando pela primeira vez.

Era uma reunião de vários amigos de uma menina que eu tinha conhecido naquele dia mesmo (eu também tenho essa mania de falar com estranhos), e eu estava segurando um copo de água enquanto olhava um quadro pendurado na parede, era um circulo roxo em meio a um fundo preto, feito de pinceladas marcadas e irregulares. Achei bonito, então tomei meu tempo em frente a ele. Foi quando Sam se aproximou de mim, claramente alterada pelo excesso de álcool, olhou para o quadro, me olhou, olhou o quadro, e disse:

– Já faz tempo que você está aqui.

Parecia incomodada com isso, como se eu estivesse fazendo alguma coisa muito errada.

– As cores, as pinceladas… Eu gosto.

– Aham. – pareceu desinteressada – Qual é seu nome?

– Ella, e o seu?

-Sam.

Seus olhos voltaram para o quadro, depois olhou ao redor e saiu dizendo que tinha sido um prazer e que conversávamos mais tarde, então foi cumprimentar alguém que conhecia. Eu voltei a olhar para o quadro.

 

O que mais me chama atenção em Sam é que ela se irrita fácil. A sua impaciência é singular. Fala alto, joga bebida no rosto dos outros e quebra copos, muitos copos. Por outro lado, parece uma pessoa muito amável, do tipo que se importa com aqueles com quem se importa (algumas pessoas não se importam com quem se importam).

Mas tudo isso observei de longe, não nos conhecemos direito. Como eu disse no começo, eu a vi muitas vezes, e muitas vezes apenas a vi.

Uma semana de Ella – dia 5

Eu não estava entendendo tudo aquilo.

Quando deixei a cidade e me deparei com todas aquelas cores percebi dificuldade de meus olhos ajustarem, estranhei. O roxo foi o que mais me chamou, nunca tinha visto nada parecido. O vermelho me era familiar, mas nunca achei que pudesse ser tão bonito. Não sabia que o céu podia ser azul. Até mesmo aquele branco era diferente. 

Foi quando me percebi livre.

 

Se hoje me sinto presa, lembro-me das flores.

 

 

, Ella A.