No topo da colina havia uma casa. Era a primeira coisa que se via depois da terceira curva da estrada que ligava uma cidade pequena à outra. Chamava a atenção não só por estar no topo da colina, mas também porque era apenas um esqueleto. Vigas cinzas e empoeiradas, apodrecidas de queimadas. Resquícios do que já fora um lar afundados em pó preto.
A residente se recusa a deixar a propriedade, apesar da situação precária e o risco eminente. Ela passa seus dias pintando. Preenche telas com o que viu: fogo crepitando, árvores secas, restos disformes, poeira densa.
Foi a segunda vez que a casa queimou. Na primeira, uma vela esquecida em uma ausência acabou-se por contaminar uma cortina e espalhou o fogo. Madeira queima fácil. A residente chegou tarde demais, e já sem poder sobre aquele destino: tudo se perdera. Foi quando começou a pintar. Era uma forma de lidar com toda a perda. Reconstruiu a casa aos pouquinhos, dia após dias, intercalando a restauração com as pinceladas.
Foram meses até que completou a reforma, mas valeu a pena. Renovada, a residência estava ainda mais bonita e aconchegante do que antes. Não tinha mais cheiro de fumaça. Tão logo as marcas do fogo ficaram apenas na memória.
Foi quando a pintora parou de pintar. Tentou inspiração nas flores que explodiam de cores ao redor da casa, nos pássaros que vinham lhe visitar, no céu de nuvens esparças e até mesmo na sua própria imagem no espelho. Não conseguia avançar dos rascunhos insosos.
Uma noite, insône e criativamente bloqueada, levantou-se da cama e acendeu um fósforo.

, Ella A.